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9 de set. de 2012

Notas mentais


                                   (O filho do homem. René Magritte – 1964)

Notas mentais requerem o uso do infinitivo:
Calar quando em dúvida.
Calar quando em certeza.
Calar quando sem saber.
Calar quando dominar.
Calar quando beber.
Calar quando replicar.
Calar quando treplicar.
Calar quando responder.
Calar.
Calar enquanto houver dois ouvidos.
Calar enquanto houver uma boca.
Calar enquanto a ira dominar.
Calar enquanto o rompante se apresentar.
Calar.
Calar pelo outro.
Calar pelo ego.
Calar pelo alter ego.
Calar pelo ato de calar.
Calar porque eles não sabem o que fazem.
Calar.
Calar por amor.
Calar pela verdade.
Calar pela mentira.
Calar sem ser só por calar.
Mas não calar diante do pecado.
Não calar diante da injustiça.
Não calar diante da desarmonia.
Mas como calar, então?
Calar meu coração?
Calar minha imperfeição?
Calar minha evolução?
Calar?
Eu calo
Tu calas
Ele cala
Nós calamos
Vós calais
Eles caluniam.
Eu perdoo
Tu perdoas?
Perdoar.
Quem não cala merece perdão.
Quem cala, também.
Me cala. Me calo.
E nos calando, nos matamos.
E renascemos para calar.

18 de set. de 2009

Coincidência? Índice Dow Jones idêntico nos dias 11 de setembro de 2001 e de 2009


Dow Jones em 11 de setembro de 2009: 9.605 pontos (clique para ver)



Você acredita em coincidência?

Será que as coisas acontecem por acaso ou são guiadas pela ordem que há no caos do Universo?

Eu, particularmente, não acredito em coincidência. Acredito que há uma correspondência de fatos, uma equação infinita de trocas de energia que culminam no desenrolar das coisas. No microcosmo, seria, do meu ponto de vista, uma cadeia de acontecimentos resultante de pensamentos e ações individuais. No macrocosmo, de pensamentos e ações coletivas.

Divagações à parte, coincidência ou não, é fato que o índice Dow Jones, principal indicador da bolsa de valores de Nova Iorque, registrou a mesma marca no fatídico 11 de Setembro (2001) e, pasmem, no 11 de setembro de 2009: 9.605 pontos.

Independentemente das crenças, das teorias, do que quer que seja que você ou eu pensamos sobre a existência ou não das coincidências (esse tema daria não apenas um post, mas sim um livro, no mínimo), é de arrepiar a constatação dessa identicidade numérica na maior bolsa de valores do mundo.

Penso que a mensagem que o Universo quer nos passar é muito simples: oito anos após a catástrofe em Manhattan, nada mudou. A ganância do atual sistema de trocas de riquezas continua. A essência do ser humano é a mesma. Mesmo com tamanho susto do 11 de Setembro, continuamos a cometer os mesmos erros: visão de curto prazo, pragmatismo sócio-econômico, lei da vantagem e por aí afora.

Talvez este seja o momento ideal para, mais uma vez, refletirmos sobre nossas ações, desde as mais insignificantes, como o cuidado com o lixo em casa, até o consumo consciente, o respeito ao próximo, a cordialidade no relacionamento com o outro, o amor pela vida.

Quando pequeno, lembro-me de meu pai me dando uma lição. A história dizia que um cavalo selado passa apenas uma vez na nossa frente. E que não devemos, portanto, desperdiçar a oportunidade.

Concordo com ele. Mas será que a nossa consciência coletiva está pronta para isso? Pronta para as oportunidades de fazer um mundo melhor?

Ah... como eu queria ter essas respostas.

11 de set. de 2009

O Quase



É o quase que me incomoda, a incerteza da consumação do fato, a palavra mal dita, o espirro enrustido.

É o meio, a indecisão, o titubeio, a vacilada, o quase que me desgasta, me corrói, me indispõe.

É o morno que vomito, nem quente, nem frio, nem tudo, nem nada, só o quase que me irrita.

É a vontade que fica suspensa, o desejo que não se revela, o beijo que não encosta o lábio alheio, o abraço quase apertado.

É o sexo nas coxas, a virtude de barro, o engasgo do vernáculo, o bocejo quase aberto.

É o amor não dito, a paixão suprimida, a liberdade rechaçada, o quase viver que me consome.

E, às vezes, eu quase não me dou conta dos quases que me convêm, dos quases que fazem desdém, dos quases que incomodam.

Mas o quase mais doído é o amigo meio-termo, a amante nebulosa, a cerveja que esquentou.

A única certeza que tenho, o único antiquase da minha vida é o agora.

O agora não é quase antes, nem quase depois. É agora. O antiquase que aprovo.

22 de jul. de 2009

Mesmo se eu pudesse



Mesmo se eu pudesse escolher onde nascer,
Mesmo se eu pudesse escolher meus pais,
Meus irmãos, meu filho, minha sina, meus prazeres,
Meus defeitos, amores, erros, acertos.
Se ainda pudesse voltar no tempo,
Sacudir a poeira, dar a volta por cima,
Eu, sem pestanejar, continuaria em linha reta.
Mesmo sabendo que de reta ela não tem nada,
Pois, sorrateiros que somos no Universo,
No vácuo da existência é que caminhamos.
Daria tudo de mim outra vez, por mim, por você.
Não cantaria hinos ao meu epitáfio, ao meu amanhã,
Ao meu que ainda não aconteceu.
Ao contrário, ao invés, por que não cantar o agora,
O aqui?
Se tivesse de escolher, se obrigado fosse,
Faria tudo igual, faria as mesmas escolhas.
E só faria tudo igual porque não posso mais escolher no passado.
Só escolho o aqui, o agora.
Sem valor reclamar. Sem sentido arrepender-se.
O que vale é a escolha de agora, a semente que se planta.
Isso é a colheita. E se é a colheita, não há com o que se preocupar.
Afinal, se algo não tem solução, para que se preocupar?
E se algo tem solução, para que se preocupar?
Se eu pudesse escolher outra vez (sei que não posso), faria tudo de novo.
Não porque sou débil a ponto de repetir os erros.
Mas pelo simples fato de que não nego minha própria herança.
Nem meus próprios potenciais.
E respeito, acima de tudo, minhas escolhas de ontem.
O hoje a mim pertence.
E o amanhã...
O amanhã é o sopro do que meu pulmão traga agora.

12 de jul. de 2009

O outro e as fronteiras


Fronteira entre México e EUA

Escrevi aqui no blog duas semanas atrás sobre a questão do outro. Uma das colocações que fiz, no post intitulado "Uma Beleza Sozinha Não Faz Verão", foi: se a minha beleza depende da do outro para existir, logo é a partir do respeito ao que é diferente de mim que serei respeitado!

O outro é a nossa fronteira, a nossa referência de finitude e, ao mesmo tempo, de complementaridade. O outro pode ser o nosso calibre, a válvula de ajuste da existência. Existimos porque o outro existe. Sem ele, não somos, não repercutimos. O outro e nós somos, ao mesmo tempo, um.

Tendo em vista esse ponto de vista, proponho aqui uma reflexão sobre o outro enquanto país, nação. E, por consequência, suas fronteiras que delimitam a liberdade do ir e vir, as trocas mercantis, os idiomas, as culturas.

Há hoje, na Europa, em comparação com a primeira metade do século XX, milhares de quilômetros de fronteiras internacionais a mais (procurei no Google a quantidade exata em quilômetros, mas não encontrei). O continente conta com 50 países atualmente, número quase duas vezes maior que há 50 anos.

Pergunto: o que explica esse fato, se levarmos em consideração que desde a Primeira Grande Guerra o processo de globalização é cada vez mais presente, haja vista a própria criação e a expansão da União Europeia nas últimas duas décadas?


Muro de Berlin

Onde há luz, sempre há sombra. Ou seja, tem sido através da tentativa de equalização (seja política, econômica, social) que, na Europa, as diferenças culturais pipocam e culminam numa reivindicação, quando não numa convulsão coletiva, pelos valores culturais de cada povo.

A diversidade só é (e assim deve ser) bela quando a possibilidade de comparação com o outro é possível. Num cenário em que se tenta colocar na mesma cesta uma série de diferentes nacionalidades, culturas e valores, é natural que o azul não queira se misturar com o vermelho, o amarelo, com o verde, e vice-versa.

Assim, quanto mais globalizados formos, menos as bandeiras haverão de se misturar. A manifestação de valores culturais de um povo está intrinsecamente ligada à sua capacidade de diferenciar-se.

Talvez resida aí um dos fatores que levaram por água abaixo a tentativa de implementação dos ideais marxistas na ex-União Soviética. É natural do ser humano sentir-se único (seja enquanto indivíduo ou grupo). E numa região de dimensões continentais como a ex-URSS é natural que as diferenças étnicas se tornariam fraturas expostas cedo ou tarde.

O caso da China, uma das exceções desse meu ponto de vista, ainda foge do meu entendimento. A população fica completamente sujeita às decisões do Estado Chinês, que controla até quantos filhos seus cidadãos podem ter durante toda sua vida. A não ser que haja, nas próximas duas décadas, uma mudança radical das bases do poder chinês (e, por consequência, a inclusão de valores mais democráticos na sociedade), não vejo a cristalização do atual ritmo de crescimento econômico que a China vem experimentando nos últimos 15 anos.

Outro exemplo de exceção é Cuba. Talvez, com o fim da dinastia Castro, que acredito acontecer até 2015, seja possível que os cubanos passem a integrar a dinâmica global de trocas mercantis, científicas e tecnológicas. Sobretudo agora com a boa vontade de Barack Obama.

Poderia citar outros exemplos aqui, mas continuaria penando para achar um ponto interessante para concluir este texto. O fato é que as fronteiras vêm aumentando, assim como o número de países, apesar de a globalização fazer força para emplacar.

O próprio episódio recente da gripe suína, ou melhor, gripe tipo A, deixou escancarado nos quatro cantos do mundo que, sim, estamos dispostos a fechar nossas fronteiras na iminência de riscos de contágio de doenças estrangeiras.

Aliás, a própria etimologia da palavra ‘estrangeiro’ já encerra em si o verdadeiro sentimento que cultivamos pelos povos que não os nossos: estranhos!

É claro que, em nome da saúde pública e blablablá, devemos pensar primeiro na gente, e não nos ‘estranhos’, quer dizer, nos estrangeiros. Mas ainda assim fico aqui matutando sobre para onde apontará a resultante desse movimento mundial de proteção fronteiriça.

Não quero nem imaginar um desfecho não muito bonito. Aliás, nada com nome de desfecho deve carregar muita beleza. Afinal, se o Universo é infinito, qualquer tentativa de se pôr um fim a qualquer coisa sempre cairá por água abaixo.


Fronteira entre Bélgica e Holanda: exemplo de convivência com o outro

29 de jun. de 2009

Caráter não tem cara



Ninguém muda.

O caráter não é algo que se modifica.

O caráter é algo que se revela.

Pode ser um caráter que desabrocha, quando a surpresa da revelação é boa.

Pode ser um caráter que detona, quando tu és vítima de tua própria ingenuidade.

A ingenuidade da crença. A fé no idiota que está para se revelar.

Cuidado.

O caráter não se modifica.

Ele, algozmente, se revela.

Queres mesmo te revelar?

Ou és covarde, fraco ou mesquinho a ponto de esconder-te de ti mesmo?

Revela-te ou devoro-me.

Não me decifra. Porque sou teu espelho, tua verdade, teu calcanhar de Aquiles.

Aquilo. Que não sei. Nem quero saber. Não me toca. Sai.

30 de mai. de 2009

O homem que Kant gostaria para o Brasil


Entrevista exclusiva para o blog


Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior

Ouça a entrevista na íntegra:


por Rodrigo Marques Barbosa
Quem seria o homem ideal para assumir um cargo político? Quem teria isenção para pensar no coletivo e agir em favor deste, senão aqueles que já têm autonomia e independência financeiras, conquistadas pré-mandato? Segundo o alemão Immanuel Kant, que viveu no século XVIII e é considerado como o último filósofo dos princípios da era moderna, os homens financeiramente independentes são os mais indicados para assumir cargos públicos em razão de poderem agir sem objetivos econômicos e apenas cultivarem interesses voltados para o bem-comum. Sim, eu também leio o que acabo de escrever e quase não levo a sério. Afinal, a imagem que temos do servidor público está distante anos-luz do que Kant propôs quase 300 anos atrás. Mas também é nossa obrigação olhar para as oportunidades que estão à nossa volta, e não apenas focar nos problemas, como as sacanagens homéricas de autoria dos nossos políticos.

'Passa boi, passa boiada' participou, na última sexta-feira (29), do seminário sobre Comunicação Corporativa promovido pela Universidade Metodista de São Paulo, no campus de São Bernardo do Campo. Um dos convidados foi o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, jornalista Miguel Jorge. Nascido em Ponte Nova, na zona da mata mineira, Jorge teve uma carreira meteórica, não em termos de tempo (apenas), mas em amplitude e importância para o Brasil. Começou em 1963 como repórter da sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo. Três anos mais tarde participou da criação do Jornal da Tarde, ocupando posições como repórter geral até subsecretário de redação. De 1977 a 1987, foi diretor de redação do jornal O Estado de S.Paulo, de onde saiu para integrar a diretoria da então recém-criada Autolatina (joint-venture entre Volkswagen e Ford). Com o fim da empresa, foi para Volkswagen do Brasil, onde assumiu o cargo de vice-presidente de assuntos legais, recursos humanos e assuntos corporativos. Em janeiro de 2001, o grupo Santander Banespa o convidou para assumir a vice-presidência de assuntos corporativos, função à qual se incorporaram as áreas de recursos humanos e assuntos jurídicos. Em março de 2007, após uma ligação do presidente Lula, Jorge aceitou seu convite para assumir o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Sem dúvida, uma trajetória marcada por sucesso e realização, alcançados no mundo corporativo, de forma isenta, e que agora, de acordo com o ideal de Kant (na imagem da pintura acima), se volta para o bem-comum.

Confira, com exclusividade, a entrevista concedida pelo jornalista e ministro Miguel Jorge ao blog 'Passa boi, passa boiada' (PBPB):


Fotos de Jô Rabelo

PBPB: O senhor começou sua carreira como repórter de jornal, participou do processo de criação da Autolatina, foi vice-presidente da Volkswagen e do banco Santander, e hoje está no Governo como Ministro de Estado. Caso semelhante é do Sr. Henrique Meirelles, atual presidente do Banco Central. Eu tive a experiência de trabalhar, indiretamente, na equipe dele no BankBoston no final da década de 90. Ele, então, estava bem colocado, era à época presidente mundial do banco. Pergunto: mesmo com a motivação do servir à Pátria, mesmo com a possibilidade de voltar ao mercado de forma ainda melhor após o período no Governo, como é abrir mão de uma posição de VP de um banco multinacional? O que motiva um profissional com tanta experiência, tanta bagagem, com pista para seguir nesse mundo corporativo, a deixar sua carreira para participar do Governo, levando-se em conta o risco e tudo o que isso pode trazer de bom e de ruim?

Miguel Jorge: Primeiramente, fui jornalista muito tempo. Atuei durante 24 anos como jornalista. Depois fiquei mais 14 anos na Volkswagen e outros seis anos e meio no Santander. Ou seja, durante boa parte da minha vida eu trabalhei com produção. Portanto, eu achava que poderia dar minha contribuição no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Se fosse um outro Ministério, dificilmente eu teria aceitado. Além disso, o fato de eu ter uma relação pessoal com o Presidente Lula me ajudou na decisão, pois também vi que ele poderia me ajudar na minha atuação como ministro. Outra coisa foi o fato de eu conhecer muito a estrutura desse ministério. Durante todos os anos na indústria automobilística, a minha relação mais forte como representante da Volkswagen – e muitas vezes como representante do próprio setor – era com esse Ministério, à época chamado apenas de Ministério da Indústria e Comércio. Depois de um determinado ponto na sua carreira, ou seja, após ter sido VP da Volkswagen, VP do Santander – que é um dos cinco maiores bancos do mundo – restam poucos lugares para ir. Portanto, mesmo que alguns pensem ser babaquice, chega uma hora que você realmente pensa que tem de dar uma contribuição. Tem de ajudar a fazer com que as coisas aconteçam com a melhor das intenções, com muita dedicação.

Da esq. à dir., ministro Miguel Jorge, prof. João Evangelista (Metodista), e Rolf-Dieter Acker, presidente da Basf América do Sul

PBPB: O Sr. se realizou ou está se realizando nisso que o motivou a ir para o Governo?

Miguel Jorge: Com todas as dificuldades que há no Governo, como, por exemplo, levar quatro meses para conseguir vacinas contra a gripe para as pessoas com mais de 60 anos é complicado. Numa empresa privada, você consegue resolver e fazer isso acontecer em 24 horas. No meu ministério, levamos quatro meses para fazer a concorrência, aprovar o plano etc. Só agora, na última terça-feira (26), a vacinação teve início. Eu fui o primeiro lá na fila para tomar a vacina. Mas mesmo com toda essa dificuldade, com toda essa burocracia da estrutura, que é muito pesada, é possível realizar muita coisa. E numa fase como a que nós estamos passando, com essa crise difícil, nós temos trabalhado muito. É claro que o país já tinha fundamentos muito fortes, mas as ações do Governo têm sido rápidas e têm nos ajudado a superar a crise. Além disso, a experiência que você traz da iniciativa privada ajuda muito nesse caso.

Alunos da Metodista durante seminário sobre Comunicação Corporativa

PBPB: Vamos falar agora não do ministro, não do executivo, mas do Miguel, do ser humano que está aí dentro, que deve estar acima de tudo isso. Como o senhor se vê frente às suas escolhas, à sua realização pessoal, profissional, às etapas por que já passou e agora ter chegado aonde está?

Miguel Jorge: É a primeira vez que me perguntam isso, apesar de eu já ter refletido muito sobre essa questão. Eu nunca tinha pensado em conquistar tudo isso. Eu comecei como repórter. Nunca pensei que de repórter eu passaria a subeditor, editor, chefe de reportagem, depois diretor de redação de um jornal como o Estadão. E de repente, num almoço aqui em São Bernardo do Campo, fui convidado pelo Sauer (Wolfgang Sauer, ex-presidente da VW e da Autolatina). Realmente fui surpreendido por isso. Enquanto ele (Sauer) me contava a história do que seria a Autolatina, eu pensava ‘essa vai ser a grande matéria de domingo do Estadão’. Mas não. Quando ele terminou a conversa, me disse: “eu queria que você fizesse parte da equipe de direção dessa empresa”. A mesma coisa aconteceu quando eu fui para o Santander. E também quando recebi uma ligação do presidente Lula: “Miguel, você pode vir aqui a Brasília? Tenho um assunto para tratar com você.” E eu não tinha a menor ideia sobre o que seria a conversa, porque não sabia que meu antecessor estava então de saída. Eu sou neto de libaneses por parte de pai, e os libaneses têm uma expressão chamada ‘maktub’, que quer dizer ‘estava escrito’. Eu sou um pouco fatalista. Eu nunca planejei nada. As coisas aconteceram. E aconteceram de uma maneira muito maior do que eu poderia um dia imaginar na minha vida.

19 de mai. de 2009

Sobre desejo e necessidade ou Carta Aberta a Gandhi


“A Terra tem tudo o que precisamos para viver. Mas apenas o necessário.”

Mahatma Gandhi (1869-1948)

São Paulo, 19 de maio de 2009


Nobre Sr. Gandhi,

Com todo meu respeito e admiração ao seu legado deixado à humanidade, permita-me fazer uma pergunta sobre sua frase que aqui me empresta como epígrafe:

Será mesmo que só precisamos do necessário?

Sei que há aí nessa minha contestação um certo paradoxo, afinal, o que é necessário deveria, por sua vez, englobar tudo o que nos basta. Não é mesmo? Ora, o que não é necessário seria dispensável. Seria?

Na minha opinião, tudo aquilo que é necessidade é mais chato. Já o que é desejo é sempre prazeroso.

Hoje entendo melhor o slogan (que, aliás, um ex-chefe meu, Sr. André Gonçalves – in memorian –, participou da criação):

“Diners. O cartão de quem não precisa.”

Ou seja, o cartão seria para aqueles que querem (e podem ter) os momentos de desejo, e não apenas os de necessidade.

Senão, vejamos alguns exemplos que gostaria de lhe compartilhar:

A obrigação é necessidade. A liberdade é desejo.

Sexo é necessidade. Sexo com amor é desejo.

A proteína da carne é necessidade. A picanha argentina é desejo.

A viagem a trabalho é necessidade. A viagem de férias é desejo.

Ler é necessidade. Ler Drummond é desejo.

Dormir é necessidade. Acordar é desejo.

Flavonoide é necessidade. Chocolate é desejo.

Vitamina C é necessidade. Suco de laranja é desejo.

O outro é necessidade. O amor do outro é desejo.

Tocar é necessidade. Carinho é desejo.

O amor de necessidade castra. O amor de desejo é liberto.

Respirar é necessidade. Suspirar é desejo.

Ouvir é necessidade. Música é desejo.

Parente é necessidade. Amigo é desejo.

Trabalhar é necessidade. Ajudar é desejo.

Blogar é minha necessidade. Você ler esse blog é meu desejo.

Para arrematar: Segundo Camões, “viver não é preciso. Navegar é preciso.” O resto é desejo.

Eu quero mais é desejar.

Porque, afinal, o que é necessidade a gente vai dar um jeito mesmo. Por obrigação. E não por escolha.

Já o desejo, não. Esse é por opção. Por vontade própria. Por decisão. É abrir mão de uma coisa em troca de outra. É desejar. É fazer o Universo se expandir.

E, assim, comungar com a divindade e o poder de criação que há em cada um de nós. Pois a necessidade é só necessidade. Já o desejo é criação.

Muito obrigado pela sua atenção.

Cordialmente,

Rodrigo Marques Barbosa

6 de mai. de 2009

A exceção da regra que toda regra tem exceção




Quando eu era moleque, na década de 80, um senhorzinho muito simpático (me escapa da memória agora o seu nome), que trabalhava na portaria do prédio lá de casa, me propôs um exercício de lógica, que repasso a vocês aqui no blog:

1) Consideremos que toda regra tem uma exceção.

2) Essa é, em si mesma, uma regra.

3) Sendo uma regra, ela própria tem sua exceção (postulado 1).

4) Ou seja, existe uma regra que, por ser a exceção da regra (2), não tem exceção.

Capisce? ;)

Você tem algum palpite sobre qual é a regra que não tem exceção?

Curioso para saber o meu palpite? Leia aqui e descubra!

Comentários sempre bem-vindos!