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14 de jul. de 2016

Rascunho de crônicas

Lips Cloud at Sunset, Vladimir Kush





















Crônicas

I
Esquilos na sala
Fartura de comida
Companhia dos esquilos
Despertar da fantasia dos esquilos

II
Toque
Poder do toque
(digitando no iPhone)
Esta didicil fale do roque comesse mundaús na mamma lesmas
Quis dizer: está difícil falar com essa língua na minha orelha
Toque

III
Cafuné

IV
Vinicius e sua vida fácil como poeta e músico
Pegava todas
Fazia porra nenhuma
Tomava todas

V
Estamos vivendo na melhor época da humanidade
Se me perguntassem quando quereria viver, não haveria outra fase que não a atual

9 de set. de 2012

Notas mentais


                                   (O filho do homem. René Magritte – 1964)

Notas mentais requerem o uso do infinitivo:
Calar quando em dúvida.
Calar quando em certeza.
Calar quando sem saber.
Calar quando dominar.
Calar quando beber.
Calar quando replicar.
Calar quando treplicar.
Calar quando responder.
Calar.
Calar enquanto houver dois ouvidos.
Calar enquanto houver uma boca.
Calar enquanto a ira dominar.
Calar enquanto o rompante se apresentar.
Calar.
Calar pelo outro.
Calar pelo ego.
Calar pelo alter ego.
Calar pelo ato de calar.
Calar porque eles não sabem o que fazem.
Calar.
Calar por amor.
Calar pela verdade.
Calar pela mentira.
Calar sem ser só por calar.
Mas não calar diante do pecado.
Não calar diante da injustiça.
Não calar diante da desarmonia.
Mas como calar, então?
Calar meu coração?
Calar minha imperfeição?
Calar minha evolução?
Calar?
Eu calo
Tu calas
Ele cala
Nós calamos
Vós calais
Eles caluniam.
Eu perdoo
Tu perdoas?
Perdoar.
Quem não cala merece perdão.
Quem cala, também.
Me cala. Me calo.
E nos calando, nos matamos.
E renascemos para calar.

6 de mar. de 2011

Sampa é uma mulher


Sampa, em definitivo, é uma mulher.

Esse jeito carinhoso que nós, seus habitantes, encontramos para lhe chamar, Sampa, dá vida e gênero a essa quatrocentona.

São Paulo, por mais homem que seja, por mais orgulhoso (quando não envergonhado) dessa cidadona que leva seu nome, não confere ao nosso habitat as formas e as cores e as curvas de uma mulher.

Quando viajam a trabalho, as pessoas de negócios vão a São Paulo. Mas é na noite, na brisa de concreto que sopra sobre bares lotados que as pessoas estão em Sampa. Tão simples assim.

Sampa nos acolhe quando temos fome, não importa a hora do dia, da noite. Ela é a mãezona sempre presente, daquelas que sabem ser rígidas na hora certa e consoladoras (na hora errada?).

Sampa é a cidade das curvas retas do Masp, das longas caminhadas do Ibira, das pedaladas sobre cimento do Villa-Lobos.

É a cidade que repulsa e atrai, que cheira bem e cheira mal, que carrega no colo e dá um fora, que beija, abraça, xinga, chora... é a cidade-mulher.

Sampa tem luz e sombra, trânsito e sossego, lixo, luxo, caro, barato, podre, pobre, rico.

Sampa tem tudo que cada um de seus filhos tem.

24 de fev. de 2010

Sobre sotaques e molhos de macarrão




Quem repara em sotaques é como alguém que só come macarrão à bolonhesa.


É como alguém que nunca provou, por pura ignorância ou mero titubeio, um carbonara.


Ou uma putanesca.


Os molhos devem ser mesmo como as putas: sempre ao gosto do freguês.


Os molhos devem ser como quem os come: refletem seu nível de civilidade. Ou de cosmopolitismo. Ou não.


Não, não que o bolonhesa não exprima nenhuma nobreza. Ao contrário. Afinal, tamanha seria a desfeita com os caros amigos de Bologna.


Mas o que me deixa puto são aqueles que só querem saber de comer macarrão com molho de carne moída (se bem que o ‘vero bolognese’ é feito de carne bem picadinha, cozida durante horas sob fogo brando).


É a falta de janela, a falta de vontade de descobrir que cheiro tem o som do outro lado, a cor do tomate cozido por horas, a panceta que perfuma, o louro que dá cor ao cheiro do cozido, o alecrim fresco que transforma, o azeite que ilumina.


É a falta disso tudo que me faz pensar e refletir sobre a falta de visão, sobre o desleixo de acomodar o outro no coração, sobre o pré-julgamento de ideias, de culturas, de maneiras de ser, enfim, de sotaques.


Eu falo como eu como. E como o mundo inteiro. E navego nos sotaques como se eles não existissem, mesmo consciente da sua presença, do seu arrastado, da sua origem. Mas nem tudo que tem origem é digno de existir.


Assim são os sotaques, bem como os molhos de macarrão. Aliás, eu realmente bem como os molhos de macarrão. Benzadeus! Saúde!

11 de set. de 2009

O Quase



É o quase que me incomoda, a incerteza da consumação do fato, a palavra mal dita, o espirro enrustido.

É o meio, a indecisão, o titubeio, a vacilada, o quase que me desgasta, me corrói, me indispõe.

É o morno que vomito, nem quente, nem frio, nem tudo, nem nada, só o quase que me irrita.

É a vontade que fica suspensa, o desejo que não se revela, o beijo que não encosta o lábio alheio, o abraço quase apertado.

É o sexo nas coxas, a virtude de barro, o engasgo do vernáculo, o bocejo quase aberto.

É o amor não dito, a paixão suprimida, a liberdade rechaçada, o quase viver que me consome.

E, às vezes, eu quase não me dou conta dos quases que me convêm, dos quases que fazem desdém, dos quases que incomodam.

Mas o quase mais doído é o amigo meio-termo, a amante nebulosa, a cerveja que esquentou.

A única certeza que tenho, o único antiquase da minha vida é o agora.

O agora não é quase antes, nem quase depois. É agora. O antiquase que aprovo.

22 de jul. de 2009

Mesmo se eu pudesse



Mesmo se eu pudesse escolher onde nascer,
Mesmo se eu pudesse escolher meus pais,
Meus irmãos, meu filho, minha sina, meus prazeres,
Meus defeitos, amores, erros, acertos.
Se ainda pudesse voltar no tempo,
Sacudir a poeira, dar a volta por cima,
Eu, sem pestanejar, continuaria em linha reta.
Mesmo sabendo que de reta ela não tem nada,
Pois, sorrateiros que somos no Universo,
No vácuo da existência é que caminhamos.
Daria tudo de mim outra vez, por mim, por você.
Não cantaria hinos ao meu epitáfio, ao meu amanhã,
Ao meu que ainda não aconteceu.
Ao contrário, ao invés, por que não cantar o agora,
O aqui?
Se tivesse de escolher, se obrigado fosse,
Faria tudo igual, faria as mesmas escolhas.
E só faria tudo igual porque não posso mais escolher no passado.
Só escolho o aqui, o agora.
Sem valor reclamar. Sem sentido arrepender-se.
O que vale é a escolha de agora, a semente que se planta.
Isso é a colheita. E se é a colheita, não há com o que se preocupar.
Afinal, se algo não tem solução, para que se preocupar?
E se algo tem solução, para que se preocupar?
Se eu pudesse escolher outra vez (sei que não posso), faria tudo de novo.
Não porque sou débil a ponto de repetir os erros.
Mas pelo simples fato de que não nego minha própria herança.
Nem meus próprios potenciais.
E respeito, acima de tudo, minhas escolhas de ontem.
O hoje a mim pertence.
E o amanhã...
O amanhã é o sopro do que meu pulmão traga agora.

29 de jun. de 2009

Caráter não tem cara



Ninguém muda.

O caráter não é algo que se modifica.

O caráter é algo que se revela.

Pode ser um caráter que desabrocha, quando a surpresa da revelação é boa.

Pode ser um caráter que detona, quando tu és vítima de tua própria ingenuidade.

A ingenuidade da crença. A fé no idiota que está para se revelar.

Cuidado.

O caráter não se modifica.

Ele, algozmente, se revela.

Queres mesmo te revelar?

Ou és covarde, fraco ou mesquinho a ponto de esconder-te de ti mesmo?

Revela-te ou devoro-me.

Não me decifra. Porque sou teu espelho, tua verdade, teu calcanhar de Aquiles.

Aquilo. Que não sei. Nem quero saber. Não me toca. Sai.

27 de jun. de 2009

Who's bad? Bye, Michael

Meu tributo a Michael Jackson: um poema que escrevi em 1992, no Canadá. Até então, não tinha dono. Agora tem.

My tribute to Michael Jackson: a poem I wrote back in 1992, in Canada. Until then it did not have an owner. Now it does.


24 de mai. de 2009

Comentário feito via Twitter por Mauricio de Sousa (@mauriciodesousa) sobre o poema "Minha primeira namorada":

Muito obrigado, Mauricio! É uma honra receber seu elogio! Sou seu fã desde que me conheço por gente.

Abraços e sorte!

15 de mai. de 2009

Illusions



Illusions

Mare nostrum gushing out
to the poor sailor's red eyes
the mirage of a mermaid.

Rodrigo Marques Barbosa

1 de mai. de 2009

Minha primeira namorada


As Meninas Cahen d'Anvers - Rosa e Azul
Pierre-Auguste Renoir - 1881 - 119x74cm

por Rodrigo Marques Barbosa

Minha primeira namorada

Conheci minha primeira namorada de forma inesperada.

Assim.

Como acontecem os amores.

Passeava pelo Masp, entre mundos nunca antes por mim imaginados.

Entre joias tupiniquins, DiCavalcantis, Volpis, Ianellis, Portinaris, Segalls e Brecherets.

E outras tantas d’além-mar, Monets, Delacroixs, Légers, Matisses, Cézannes e até Van Goghs.

Mas foi na ala dos Renoirs que o chão me faltou.

Minha primeira namorada vestia rosa, usava um lindo sapatinho de verniz.

Segurava inseguramente a cinta de cetim que lhe prendia a cintura.

E com a outra mãozinha acolhia-se junto à minha cunhadinha de azul.

Seu cabelo era ruivo.

Podia ser castanho também.

Ou loiro.

Às vezes até preto.

Tudo era uma questão de luz.

E era de luz que aquela pequena me enchia o coração, me fazia respirar fundo (tum-tum, tum-tum, tum-tum), com vontade de vomitar.

Não, não de nojo, mas de enjoo gostoso, daquele friozinho na barriga que acomete os mais desavisados.

Hoje sou avisado.

Avisado até demais.

Tão avisado que não me deixo mais levar pelas moçoilas de rosa e azul que andam por aí.

Loiras, morenas ou ruivas, elas não têm o olhar que pede colo, nem tampouco guardam mais a promessa do ‘l'avenir’.

São mais parecidas com a minha cunhadinha, olhar altivo, mãozinha assanhada querendo, subliminarmente, levantar seu saiote.

Minha primeira namorada olhou para mim, quis sorrir.

Apertou os lábios, a bochecha enrubesceu com minha investida marota, ainda que contida, embasbacado que estava ao fitá-la.

Despedi-me com a promessa de sempre lhe visitar, ainda que por instantes pudesse fazê-la sentir-se em outra dimensão, na minha dimensão (se bem que não sei se a minha namorada quereria sair de seu salão tão bonito, seu tapete tão felpudo).

Mas foi a minha primeira namorada que me levou para uma viagem ultradimensional.

Viajei para dentro daquele quadro, espiei-a por detrás da cortina até tomar coragem de vir-lhe falar: “Bom dia, senhorita! Qual é sua graça?”

Minha primeira namorada se chamava Alice.