6 de mar. de 2011
Sampa é uma mulher
24 de fev. de 2010
Sobre sotaques e molhos de macarrão

Quem repara em sotaques é como alguém que só come macarrão à bolonhesa.
É como alguém que nunca provou, por pura ignorância ou mero titubeio, um carbonara.
Ou uma putanesca.
Os molhos devem ser mesmo como as putas: sempre ao gosto do freguês.
Os molhos devem ser como quem os come: refletem seu nível de civilidade. Ou de cosmopolitismo. Ou não.
Não, não que o bolonhesa não exprima nenhuma nobreza. Ao contrário. Afinal, tamanha seria a desfeita com os caros amigos de Bologna.
Mas o que me deixa puto são aqueles que só querem saber de comer macarrão com molho de carne moída (se bem que o ‘vero bolognese’ é feito de carne bem picadinha, cozida durante horas sob fogo brando).
É a falta de janela, a falta de vontade de descobrir que cheiro tem o som do outro lado, a cor do tomate cozido por horas, a panceta que perfuma, o louro que dá cor ao cheiro do cozido, o alecrim fresco que transforma, o azeite que ilumina.
É a falta disso tudo que me faz pensar e refletir sobre a falta de visão, sobre o desleixo de acomodar o outro no coração, sobre o pré-julgamento de ideias, de culturas, de maneiras de ser, enfim, de sotaques.
Eu falo como eu como. E como o mundo inteiro. E navego nos sotaques como se eles não existissem, mesmo consciente da sua presença, do seu arrastado, da sua origem. Mas nem tudo que tem origem é digno de existir.
Assim são os sotaques, bem como os molhos de macarrão. Aliás, eu realmente bem como os molhos de macarrão. Benzadeus! Saúde!
11 de set. de 2009
O Quase
É o meio, a indecisão, o titubeio, a vacilada, o quase que me desgasta, me corrói, me indispõe.
É o morno que vomito, nem quente, nem frio, nem tudo, nem nada, só o quase que me irrita.
É a vontade que fica suspensa, o desejo que não se revela, o beijo que não encosta o lábio alheio, o abraço quase apertado.
É o sexo nas coxas, a virtude de barro, o engasgo do vernáculo, o bocejo quase aberto.
É o amor não dito, a paixão suprimida, a liberdade rechaçada, o quase viver que me consome.
E, às vezes, eu quase não me dou conta dos quases que me convêm, dos quases que fazem desdém, dos quases que incomodam.
Mas o quase mais doído é o amigo meio-termo, a amante nebulosa, a cerveja que esquentou.
A única certeza que tenho, o único antiquase da minha vida é o agora.
O agora não é quase antes, nem quase depois. É agora. O antiquase que aprovo.
1 de jul. de 2009
Uma beleza sozinha não faz verão
Algo que me chamou a atenção foram o jeito e os trejeitos dela ao escrever. Um português lusitano -- com o perdão do pleonasmo -- com aquele mesmo charme que os americanos apreciam nos ingleses, e estes, nos franceses.
E ao me deparar com essa diferença, sutil diferença, pude notar, pela enésima vez (mas a primeira que me leva à pena, ou melhor, ao teclado), o quão bela e rica e elegante é a nossa língua portuguesa.
As possibilidades de mover artigos, verbos e pronomes de lugar, sem alterar o sentido da frase, mas lhe conferindo mais poesia ou intenção ou tom (como que se não pudesse um tom ser poético, ou uma poesia, bem ou mal intencionada).
Sempre gostei de estudar outras línguas. E idiomas também. Mas tratemos dos idiomas por ora. Desde pequeno fuçava em dicionários, enciclopédias, sempre encantado com o novo, com o diferente, com o distante, mesmo que este estivesse sob minhas narinas.
Já me disseram que essa vocação, se é que se pode chamar de vocação, é influência da minha Lua na nona casa astral e de Júpiter na terceira. Deve ser mesmo. Afinal, a Lua rege meu signo solar, e o planetão, Júpiter, governa o meu setor de curiosidade, conhecimento, contatos sociais.
Mas o fato concreto, que penso não causar controvérsias astrológicas, é que tenho cada vez mais claro dentro de mim que a beleza do que somos, e do que temos também (como, por exemplo, a nossa língua portuguesa), só pode ser apreciada quando temos como referência o outro, ou a outra, se preferir.
Mesmo assim, ressalvo: como é impressionante nossa capacidade de ignorar as coisas preciosas que nos servem a vida toda, como a família, a noção de Pátria, os amigos verdadeiros, o trabalho, a língua! Parafraseando os anglófonos, "we take it for granted" (se alguém souber de uma tradução boa para essa expressão, por favor, compartilhe).
Enfim, arremato esse texto, que pode parecer solto, mas cuja intenção é propor uma reflexão sobre como a diversidade pode ser a via mais legítima para se enxergar a nossa própria beleza humana, com a seguinte ideia: se a minha beleza depende da do outro para existir, logo é a partir do respeito ao que é diferente de mim que serei respeitado!
Tão simples, tão elementar. Basta querermos olhar ao redor e enxergar. E aprender que dar risada de nós mesmos pode ser um sábio aprendizado.
Afinal, assim como andorinha, uma beleza sozinha também não faz verão.
24 de mai. de 2009

Muito obrigado, Mauricio! É uma honra receber seu elogio! Sou seu fã desde que me conheço por gente.
Abraços e sorte!
1 de mai. de 2009
Minha primeira namorada

Minha primeira namorada
Conheci minha primeira namorada de forma inesperada.
Assim.
Como acontecem os amores.
Passeava pelo Masp, entre mundos nunca antes por mim imaginados.
Entre joias tupiniquins, DiCavalcantis, Volpis, Ianellis, Portinaris, Segalls e Brecherets.
E outras tantas d’além-mar, Monets, Delacroixs, Légers, Matisses, Cézannes e até Van Goghs.
Mas foi na ala dos Renoirs que o chão me faltou.
Minha primeira namorada vestia rosa, usava um lindo sapatinho de verniz.
Segurava inseguramente a cinta de cetim que lhe prendia a cintura.
E com a outra mãozinha acolhia-se junto à minha cunhadinha de azul.
Seu cabelo era ruivo.
Podia ser castanho também.
Ou loiro.
Às vezes até preto.
Tudo era uma questão de luz.
E era de luz que aquela pequena me enchia o coração, me fazia respirar fundo (tum-tum, tum-tum, tum-tum), com vontade de vomitar.
Não, não de nojo, mas de enjoo gostoso, daquele friozinho na barriga que acomete os mais desavisados.
Hoje sou avisado.
Avisado até demais.
Tão avisado que não me deixo mais levar pelas moçoilas de rosa e azul que andam por aí.
Loiras, morenas ou ruivas, elas não têm o olhar que pede colo, nem tampouco guardam mais a promessa do ‘l'avenir’.
São mais parecidas com a minha cunhadinha, olhar altivo, mãozinha assanhada querendo, subliminarmente, levantar seu saiote.
Minha primeira namorada olhou para mim, quis sorrir.
Apertou os lábios, a bochecha enrubesceu com minha investida marota, ainda que contida, embasbacado que estava ao fitá-la.
Despedi-me com a promessa de sempre lhe visitar, ainda que por instantes pudesse fazê-la sentir-se em outra dimensão, na minha dimensão (se bem que não sei se a minha namorada quereria sair de seu salão tão bonito, seu tapete tão felpudo).
Mas foi a minha primeira namorada que me levou para uma viagem ultradimensional.
Viajei para dentro daquele quadro, espiei-a por detrás da cortina até tomar coragem de vir-lhe falar: “Bom dia, senhorita! Qual é sua graça?”
Minha primeira namorada se chamava Alice.
19 de abr. de 2009
Apenasmente por isso

Inspirei-me na epígrafe de "Sagarana", obra de João Guimarães Rosa, panteão do neologismo, para batizar este blog:
"Lá em cima daquela serra, passa boi, passa boiada, passa gente ruim e boa, passa minha namorada."
No uso popular, a expressão 'passa boi, passa boiada' enseja um certo caráter relaxado e negligente, característica atribuída sobretudo a políticos, alguns empresários, oportunistas, gatunos, enfim toda a turma do 'opa lelê'.
Guimarães Rosa, não. O mestre utilizou a expressão para introduzir o leitor aos elementos centrais do livro: Minas Gerais, sertão, bois, vaqueiros e jagunços, o bem e o mal.
Esse é o tom que pretendo dar ao blog: tanto tratar do descaso de uns, quanto do poético, do sertanejo (sou rio-pretense, lembra?) de outros. Fazer arder a dicotomia e, na sua agudez intrínseca, fazê-la revelar-se. Ou romper-se de vez.
Não mais que isso. Nem menos. Ou, como diria Rosa, apenasmente.
Leia mais sobre 'Sagarana' aqui.
10 de abr. de 2009
Twitter: uma biografia não autorizada

Parte I – O primeiro encontro
Cruzei com uma Chevrolet Lumina na rua dias atrás. Eu voltava do mercado, final do dia, parado no semáforo. De repente aquele colosso atravessou elegantemente a avenida Giovanni Gronchi. Apesar de já deixar até as balzaquianas das vans para trás, a Lumina (foto) foi pioneira no início da década de 90 em se tratando de design inovador. Hoje, é uma senhorinha quase esquecida pela maioria dos mortais.

Na época em que foi lançada, me lembro de ouvir gente dizendo que aquele design não iria vingar, que era muito futurista, muito isso, muito aquilo. O fato é que a Lumina não só trouxe um novo paradigma para o mercado de vans no Brasil, como também serviu de inspiração para os modelos que a sucederam nos anos seguintes (compare com a foto do último lançamento da Citroen, a C4 Grand Picasso). Lembrem que foi bem naquela época que o ex-presidente Collor abria a porteira para as importações, o que fez com que a indústria nacional saísse do marasmo e tirasse o traseiro da cadeira.

No mesmo dia em que tive o encontro com essa senhora, a dona Lumina, fui apresentado a um recém-nascido, desses aí da chamada geração índigo, ultrarrápidos, conectados, futuristas (igualzinho minha senhora amiga de anos atrás). – Prazer, Rodrigo. Como vai? – Vou bem, ele me respondeu. Me chamo Twitter.
Parte II – Professora de inglês
Desci as compras do carro e segui em direção ao elevador. Uma bela morena, de cabelos presos, calça jeans, camiseta e tênis brancos, olhos pretos, abriu a porta para eu entrar, já que, com as mãos carregadas de sacolas, o máximo que consegui fazer, além de segurar o queixo(!), foi dizer boa tarde, obrigado.
Luana puxou conversa comigo para me informar que estava dando aulas particulares de inglês. Aproveitei a deixa para tirar uma dúvida que tinha a respeito da tradução do verbo “to twit”. Afinal, ela voltara da Inglaterra havia poucos dias, vernáculo na ponta da língua, cuca fresca no oásis dos 19 anos.
Eu estava curioso para entender a origem do nome daquele recém-nascido, criança precoce, já falava várias línguas, se comunicava na velocidade da luz. Como eu não sabia a tradução literal de twitter, logo, se descobrisse o que twit queria dizer, mataria a charada.
A professora não soube me responder de bate-pronto, mas se prontificou a pesquisar em seus dicionários e me retornar ainda naquela noite. Duas horas mais tarde, Luana tocou a campainha. Abri a porta, surpreso com aquela visão, e a convidei para entrar e se sentar.
– Não posso ficar muito tempo, tenho uma aula daqui a pouco. Mas consegui achar o significado do verbo twit. Quer dizer tirar sarro em alguém, ridicularizar, zombar, esclareceu Luana.
Agradeci pela ajuda, ela partiu, e eu fiquei ali em pé, pensando em como meu recém-amigo poderia se chamar zombador, aquele que tira sarro, ridicularizador, Twitter.
Parte III – Tio Google
Apesar de muito novinho, Twitter já tem profissão. Na verdade, já tem seu próprio negócio. Naturalmente, Twitter escolheu a internet para difundir seus serviços, e o sucesso não tardou a chegar. Tanto é que o Google pretende comprá-lo por 250 milhões de dólares. Uns dizem que o Twitter vale até 500. Não tenho a mínima condição técnica para fazer essa avaliação, mas posso dizer que se o Google tem olhos grandes para cima do Twitter, é porque o negócio deve ser bom mesmo. A propósito, o Google é o tio não consanguíneo do Twitter. De comum mesmo, só o silício do DNA.
Parte IV – Já sofro de bullying
Para quem não se lembra, bullying é um termo que vem sendo utilizado por educadores na América do Norte e na Europa (e cada vez mais no Brasil) para definir o desvio de comportamento de crianças e adolescentes nas escolas.
Pode-se melhor traduzir “bullying” como provocação, zombaria, ameaça, comportamento que assusta ou fere alguém menor ou mais fraco. Especificamente, na escola, intimidação física dos colegas mais fracos pelos mais fortes.
O meu amigo Twitter, apesar de seu tio Google querer ‘adotá-lo’, já sofre de bullying. Como tudo que faz sucesso nessa vida, o Twitter chegou e já causou muito desconforto. Há milhares de posts negativos sobre a criança nos quatro cantos do mundo.
A principal queixa dos incomodados é que o Twitter logo cansará o povo. Afinal, de que me adianta saber o que o fulano comeu no café da manhã, ou então que o sicrano passou a tarde apagando os arquivos deletados do seu computador (?), ou que o João está ouvindo Radio Head no iPod touch mega flex rubber simphony?
Parte V – Plástica e Twitter quântico
Tudo bem, pode parecer meio superficial falar assim, mas estou começando a desconfiar que o Twitter é neto da Sra. Lumina. Lembra-se dela? A dona Lumina? Na avenida Giovanni Gronchi?
Pois é. Assim como a van noventona da Chevrolet, o Twitter chegou para ficar. Não necessariamente como é agora (até porque hoje a Lumina está com o design ultrapassado), mas certamente para criar novos paradigmas e remodelar a cara da internet, que, diga-se de passagem, já está na hora de fazer um face lift.
A questão é que muito pouca gente (e eu não me incluo nesse grupo) consegue visualizar a amplitude e a potencialidade desse menino Twitter. A gente (agora sim me incluo ;)) simplesmente não sabe direito para quê usa-lo. Mas o cheiro que sinto é que num futuro breve a conectividade será de tamanha magnitude, que celulares (os quais ninguém tira do bolso ou da bolsa), notebooks, palms, desktops, MP3/4/5’s, rádios do carro, enfim, todas as mídias que frequentam nossas vidas passarão a se falar em tempo real.
Isso já acontece hoje de uma forma mais sutil. Quando edito a minha mensagem pessoal no MSN através do Nimbuzz instalado no meu celular, automaticamente aquele conteúdo é atualizado no meu Twitter, Skype, Orkut, blog, Yahoo, Facebook, Google Talk, MySpace e, é claro, MSN. Quando faço isso, tenho aquela sensação de ser uma partícula quântica, que é única mas pode ser vista em diversos locais no espaço.
Fico imaginando o poder do Twitter daqui a alguns meses, talvez um ano ou dois. Além disso, em estudos técnicos sobre o assunto, ficou provado que os usuários do Twitter têm redes mais interconectadas, o que justifica o buzz causado por esse bem-vindo rebento.
Parte final – Follow me?
Como não sei muito bem o que fazer com o Twitter, dei uma pesquisada na internet para saber um pouco mais sobre esse pequeno gênio. Encontrei um artigo interessante sobre o assunto no site http://pontomidia.com.br/raquel/, intitulado "Twitter: Muito barulho por nada?".
Para entender alguns dos motivos que fazem o Twitter ser capaz de gerar tanto buzz, me perguntei: por que isso acontece? Encontrei no site a seguinte resposta dada pela jornalista e professora Raquel Recuerono:
"Primeiro por conta da própria estrutura do Twitter. Como site de rede social, ele permite uma complexificação muito grande de suas redes internas, que parecem ser bastante interconectadas (...). Como é mais conectado, as informações circulam mais rápido e de forma mais abrangente. Segundo porque (...) o Twitter foi adotado como uma ferramenta informacional e é por causa disso que tem uma capacidade muito maior que a dos outros sites de propagar informações e ampliar o seu alcance. Para mim, é nessa característica de difusão de mensagens pela rede que está o diferencial do Twitter e que está a explicação enquanto gerador de buzz. Finalmente, o Twitter foi apropriado por um grupo de usuários de Internet que eu chamei heavy users. Isso significa que são pessoas envolvidas com mídia digital, pessoas que valorizam essas conexões e suas trocas e finalmente, pessoas que possuem outras ferramentas (como blogs, fotologs e etc.) que auxiliam a amplificar o poder de difusão de informações da ferramenta.”
Eu tenho um palpite. Assim como quem usava celular todos os dias, tinha micro em casa e fotografava com câmera digital 15 anos atrás era considerado “heavy user”, imagine o que o Twitter não vai causar quando nós, comuns, estivermos a todo vapor com nossos blogs, fotologs, mídias digitais e sabe lá o que ainda está por vir.
Pródigo ou prodígio, esse menino vai continuar dando muito o que falar. Agora me dêem licença que vou postar o link para este artigo no Twitter. Do you wanna follow me? @rodrrigo.









