Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

9 de set. de 2012

Notas mentais


                                   (O filho do homem. René Magritte – 1964)

Notas mentais requerem o uso do infinitivo:
Calar quando em dúvida.
Calar quando em certeza.
Calar quando sem saber.
Calar quando dominar.
Calar quando beber.
Calar quando replicar.
Calar quando treplicar.
Calar quando responder.
Calar.
Calar enquanto houver dois ouvidos.
Calar enquanto houver uma boca.
Calar enquanto a ira dominar.
Calar enquanto o rompante se apresentar.
Calar.
Calar pelo outro.
Calar pelo ego.
Calar pelo alter ego.
Calar pelo ato de calar.
Calar porque eles não sabem o que fazem.
Calar.
Calar por amor.
Calar pela verdade.
Calar pela mentira.
Calar sem ser só por calar.
Mas não calar diante do pecado.
Não calar diante da injustiça.
Não calar diante da desarmonia.
Mas como calar, então?
Calar meu coração?
Calar minha imperfeição?
Calar minha evolução?
Calar?
Eu calo
Tu calas
Ele cala
Nós calamos
Vós calais
Eles caluniam.
Eu perdoo
Tu perdoas?
Perdoar.
Quem não cala merece perdão.
Quem cala, também.
Me cala. Me calo.
E nos calando, nos matamos.
E renascemos para calar.

6 de mar. de 2011

Sampa é uma mulher


Sampa, em definitivo, é uma mulher.

Esse jeito carinhoso que nós, seus habitantes, encontramos para lhe chamar, Sampa, dá vida e gênero a essa quatrocentona.

São Paulo, por mais homem que seja, por mais orgulhoso (quando não envergonhado) dessa cidadona que leva seu nome, não confere ao nosso habitat as formas e as cores e as curvas de uma mulher.

Quando viajam a trabalho, as pessoas de negócios vão a São Paulo. Mas é na noite, na brisa de concreto que sopra sobre bares lotados que as pessoas estão em Sampa. Tão simples assim.

Sampa nos acolhe quando temos fome, não importa a hora do dia, da noite. Ela é a mãezona sempre presente, daquelas que sabem ser rígidas na hora certa e consoladoras (na hora errada?).

Sampa é a cidade das curvas retas do Masp, das longas caminhadas do Ibira, das pedaladas sobre cimento do Villa-Lobos.

É a cidade que repulsa e atrai, que cheira bem e cheira mal, que carrega no colo e dá um fora, que beija, abraça, xinga, chora... é a cidade-mulher.

Sampa tem luz e sombra, trânsito e sossego, lixo, luxo, caro, barato, podre, pobre, rico.

Sampa tem tudo que cada um de seus filhos tem.

11 de set. de 2009

O Quase



É o quase que me incomoda, a incerteza da consumação do fato, a palavra mal dita, o espirro enrustido.

É o meio, a indecisão, o titubeio, a vacilada, o quase que me desgasta, me corrói, me indispõe.

É o morno que vomito, nem quente, nem frio, nem tudo, nem nada, só o quase que me irrita.

É a vontade que fica suspensa, o desejo que não se revela, o beijo que não encosta o lábio alheio, o abraço quase apertado.

É o sexo nas coxas, a virtude de barro, o engasgo do vernáculo, o bocejo quase aberto.

É o amor não dito, a paixão suprimida, a liberdade rechaçada, o quase viver que me consome.

E, às vezes, eu quase não me dou conta dos quases que me convêm, dos quases que fazem desdém, dos quases que incomodam.

Mas o quase mais doído é o amigo meio-termo, a amante nebulosa, a cerveja que esquentou.

A única certeza que tenho, o único antiquase da minha vida é o agora.

O agora não é quase antes, nem quase depois. É agora. O antiquase que aprovo.

13 de ago. de 2009

No Heavens: aprendendo vendas com histórias divertidas

Meu querido amigo Brandi lança, no próximo dia 21 de setembro, aqui em São Paulo (veja convite abaixo), seu livro "No Heavens - aprendendo vendas com histórias divertidas".

Trata-se de uma reunião de pequenas crônicas escritas por ele ao longo de sua carreira, em que Brandi mostra perspectivas diferentes daquelas a que estamos condicionados a enxergar no mundo delicado das vendas.

Transcrevo em seguida o prefácio do livro, escrito por Giacomo Mastroianni, publicitário, jornalista e escritor, e já convido todos os leitores de Passa Boi, Passa Boiada a prestigiar esse lançamento literário.



"Imagine o sábio Isaac Newton visualizando suas teorias da mecânica gravitacional, com todas as complicadas fórmulas e equações implícitas, no exato momento em que a maçã lhe caísse sobre a cabeça. É mais ou menos o que acontece com o profissional de marketing e administração ao protagonizar cada episódio do dia-a-dia, no envolvimento com outras pessoas em negócios. Episódios que para leigos parecem destituídos de fundamentos, para estes homens e mulheres de marketing, entre os quais me incluo, soam como verdadeiros cases, cheios de ensinamentos profundos.

O autor desse despretensioso e compacto livro é, no fundo, um contador de histórias. Algumas até líricas, outras de puro pragmatismo negocial e quase todas revestidas de certo humor e picardia, como para provar: nos contatos pessoais e nos contratos informais de negócios, rolam muita esperteza e matreirices, que beiram sempre certo cinismo. Ali, onde uma pessoa comum enxerga lances banais de relacionamento, na vida ou no trabalho, o autor consegue avistar ações e reações regidas por leis de evolução profissional. Em determinados momentos, identifica com toda clareza erros mercadológicos, surgidos da transgressão comportamental de um vendedor. Da pouca atenção de um empresário à cartilha básica dos bons serviços, onde o cliente é rei e senhor de todos os nossos movimentos.

Noutro instante, o autor nos faz perceber que nada substitui o talento instintivo do vendedor. É quando, tal qual um alquimista, sugere o caminho oculto dos labirintos da venda perdida e vai sacar de seu arsenal invisível, a arma decisiva do argumento convincente, sempre alicerçado na visão positiva de um bom resultado final.

Carlos Brandi, no âmbito das empresas do ramo financeiro a que tem servido nesses últimos 20 anos, parece ter ministrado treinamentos sempre lembrando de suas experiências da vida particular, vivenciadas ou como comprador ou como vendedor. Ora como vítima injustiçada de algum gesto violento na infância, ora como triunfal vencedor de pelejas juvenis, ele saiu catando por aí tudo que encontrava para fundamentar a técnica dessa paciência, dessa persistência, da construção daquele resultado sempre quantificável, que transforma um vendedor num vencedor.

Por outro lado, lá fora, nos tabuleiros de banana das quitandas, nos balcões de lojas de moda dos shoppings, nos pátios de estacionamento, nas salas refrigeradas das financeiras ou no corpo a corpo com a clientela das revendas de automóveis, ele vai destilando teorias de Kotler, numa simbiose bastante proveitosa para ambos os universos.

Aliar a teoria à prática é o conceito mais importante para a evolução do marketing em nosso país.

Esperamos que os leitores de Brandi curtam suas histórias com a seriedade que o marketing merece e o fair- play que o seu estilo literário sugere, o que torna palatável e digerível os grandes ensinamentos contidos nessas crônicas simples."


Giacomo Mastroianni

Fortaleza, 25 de setembro de 2008

22 de jul. de 2009

Mesmo se eu pudesse



Mesmo se eu pudesse escolher onde nascer,
Mesmo se eu pudesse escolher meus pais,
Meus irmãos, meu filho, minha sina, meus prazeres,
Meus defeitos, amores, erros, acertos.
Se ainda pudesse voltar no tempo,
Sacudir a poeira, dar a volta por cima,
Eu, sem pestanejar, continuaria em linha reta.
Mesmo sabendo que de reta ela não tem nada,
Pois, sorrateiros que somos no Universo,
No vácuo da existência é que caminhamos.
Daria tudo de mim outra vez, por mim, por você.
Não cantaria hinos ao meu epitáfio, ao meu amanhã,
Ao meu que ainda não aconteceu.
Ao contrário, ao invés, por que não cantar o agora,
O aqui?
Se tivesse de escolher, se obrigado fosse,
Faria tudo igual, faria as mesmas escolhas.
E só faria tudo igual porque não posso mais escolher no passado.
Só escolho o aqui, o agora.
Sem valor reclamar. Sem sentido arrepender-se.
O que vale é a escolha de agora, a semente que se planta.
Isso é a colheita. E se é a colheita, não há com o que se preocupar.
Afinal, se algo não tem solução, para que se preocupar?
E se algo tem solução, para que se preocupar?
Se eu pudesse escolher outra vez (sei que não posso), faria tudo de novo.
Não porque sou débil a ponto de repetir os erros.
Mas pelo simples fato de que não nego minha própria herança.
Nem meus próprios potenciais.
E respeito, acima de tudo, minhas escolhas de ontem.
O hoje a mim pertence.
E o amanhã...
O amanhã é o sopro do que meu pulmão traga agora.

22 de jun. de 2009

Blog, um sismógrafo


Peguei-me pensando dia desses sobre por que escrevo a respeito de tudo e nada aqui em 'Passa boi, passa boiada'.

A própria descrição que criei para o blog reflete isso: "Blog sobre nada. Já que tudo é nada, logo, sobre tudo também".

José Saramago, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, que também escreve um blog, traduziu com maestria esse meu (e dele) sentimento sobre escrever um blog:

"Os sismógrafos não escolhem os terremotos, reagem aos que vão ocorrendo, e o blog é isso, um sismógrafo."


Pronto, traduzido. E, agora, justificado. Pelo menos para mim.

2 de jun. de 2009

Drummond para o meu epitáfio

E também condolências às vítimas do voo AF447



Encarar o tema da morte, por mais mórbido ou desagradável que seja, nos é inevitável.

O trágico acidente de hoje com o avião da Air France mexe com o fundo da nossa consciência e nos faz refletir sobre quão sensíveis, pequenos, frágeis somos e, ao mesmo tempo, tão queridos, únicos e especiais.

Apesar de, no mundo, morrerem anualmente mais pessoas vítimas de picadas de abelhas do que de acidentes aéreos, só nos deparamos com a morte, a única certeza que temos sobre a existência, quando ela nos choca como nos chocou o noticiário nesta manhã.

Por isso, quero aqui, além de deixar minha homenagem às 228 vítimas do voo 447 da Air France, registrar o que desejo que seja lapidado no meu epitáfio: um poema de Drummond.


Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

Foto de Rodrigo Marques Barbosa, litoral de SP

24 de mai. de 2009

Comentário feito via Twitter por Mauricio de Sousa (@mauriciodesousa) sobre o poema "Minha primeira namorada":

Muito obrigado, Mauricio! É uma honra receber seu elogio! Sou seu fã desde que me conheço por gente.

Abraços e sorte!

19 de mai. de 2009

Sobre desejo e necessidade ou Carta Aberta a Gandhi


“A Terra tem tudo o que precisamos para viver. Mas apenas o necessário.”

Mahatma Gandhi (1869-1948)

São Paulo, 19 de maio de 2009


Nobre Sr. Gandhi,

Com todo meu respeito e admiração ao seu legado deixado à humanidade, permita-me fazer uma pergunta sobre sua frase que aqui me empresta como epígrafe:

Será mesmo que só precisamos do necessário?

Sei que há aí nessa minha contestação um certo paradoxo, afinal, o que é necessário deveria, por sua vez, englobar tudo o que nos basta. Não é mesmo? Ora, o que não é necessário seria dispensável. Seria?

Na minha opinião, tudo aquilo que é necessidade é mais chato. Já o que é desejo é sempre prazeroso.

Hoje entendo melhor o slogan (que, aliás, um ex-chefe meu, Sr. André Gonçalves – in memorian –, participou da criação):

“Diners. O cartão de quem não precisa.”

Ou seja, o cartão seria para aqueles que querem (e podem ter) os momentos de desejo, e não apenas os de necessidade.

Senão, vejamos alguns exemplos que gostaria de lhe compartilhar:

A obrigação é necessidade. A liberdade é desejo.

Sexo é necessidade. Sexo com amor é desejo.

A proteína da carne é necessidade. A picanha argentina é desejo.

A viagem a trabalho é necessidade. A viagem de férias é desejo.

Ler é necessidade. Ler Drummond é desejo.

Dormir é necessidade. Acordar é desejo.

Flavonoide é necessidade. Chocolate é desejo.

Vitamina C é necessidade. Suco de laranja é desejo.

O outro é necessidade. O amor do outro é desejo.

Tocar é necessidade. Carinho é desejo.

O amor de necessidade castra. O amor de desejo é liberto.

Respirar é necessidade. Suspirar é desejo.

Ouvir é necessidade. Música é desejo.

Parente é necessidade. Amigo é desejo.

Trabalhar é necessidade. Ajudar é desejo.

Blogar é minha necessidade. Você ler esse blog é meu desejo.

Para arrematar: Segundo Camões, “viver não é preciso. Navegar é preciso.” O resto é desejo.

Eu quero mais é desejar.

Porque, afinal, o que é necessidade a gente vai dar um jeito mesmo. Por obrigação. E não por escolha.

Já o desejo, não. Esse é por opção. Por vontade própria. Por decisão. É abrir mão de uma coisa em troca de outra. É desejar. É fazer o Universo se expandir.

E, assim, comungar com a divindade e o poder de criação que há em cada um de nós. Pois a necessidade é só necessidade. Já o desejo é criação.

Muito obrigado pela sua atenção.

Cordialmente,

Rodrigo Marques Barbosa

15 de mai. de 2009

Illusions



Illusions

Mare nostrum gushing out
to the poor sailor's red eyes
the mirage of a mermaid.

Rodrigo Marques Barbosa

"Morreu na miséria, mas morreu em Copacabana"

Fausto Wolff em foto de Cristina Carriconde

A frase que intitula este post é do meu querido amigo Rivaldo Brito. E ela se refere ao bravo brasileiro
Fausto Wolff, jornalista e escritor, morto no final do inverno de 2008 (5/set). Não chegou a fazer a primavera.

Pretendo aqui não falar da vida e obra de Wolff (outros muito mais competentes já o fizeram). Mas o que me impulsionou a escrever esta nota foi a força do testemunho que Rivaldo compartilhou comigo ontem numa mesa de bar aqui em São Paulo.

Wolff nasceu e morreu pobre. Mas conheceu o mundo, desde suas relíquias até suas mazelas. Viajou, comeu, bebeu, trepou. Não empurrou a vida com a barriga. Respeitou sempre sua autonomia de vida, com a vida, para a vida.


Praia de Copacabana, RJ

Rivaldo me contou que esteve na plateia de uma palestra proferida por Wolff em junho de 2003, em que o polêmico jornalista mostrou um pouco dessa que chamei de 'sua autonomia'. Talvez não da forma mais ortodoxa nem tãopouco diplomática, mas da sua forma.

Após reclamar do trânsito caótico de São Paulo (chegou a abrir o discurso com a frase "essa cidade de vocês é uma merda!") e sugerir que no lugar do copo d'água poderia estar uma dose de uísque, Wolff foi logo metralhando (quem atira é pra se defender?) que, mesmo sem ter um puto no bolso, poderia, se quisesse, ao discar de um número de celular de amigos, ir para a Dinamarca no dia seguinte.


Caricatura de Wolff by Caruso: relançamento do Pasquim

Sem querer aqui fazer juízo de valor ou taxá-lo de arrogante, há de se apreciar em Fausto (e ele fazia jus ao nome: fausto = grande e wolff = o lobo, apesar de esse ser o pseudônimo de Faustin von Wolffenbüttel) sua autenticidade, espontaneidade e audácia. Talvez ingredientes que invejamos nele e, por isso, alguma certa ou eventual repulsa quando em contato com suas manifestações.

Mas o arremate da vida de Fausto, segundo ele mesmo já deixou transparecer em várias ocasiões, foi morrer em Copacabana. Afinal, como só temos um palpite sobre o outro lado, é sempre válido aproveitar o aqui e o agora da forma que cada um escolher. E, sobretudo, deixar de invejar as escolhas do outro, ainda mais quando não temos os culhões nem para escolher para nós mesmos.


A linda e calma Dinamarca



Acima e abaixo: folheto da palestra de Wolf de que participou meu amigo Rivaldo




1 de mai. de 2009

Minha primeira namorada


As Meninas Cahen d'Anvers - Rosa e Azul
Pierre-Auguste Renoir - 1881 - 119x74cm

por Rodrigo Marques Barbosa

Minha primeira namorada

Conheci minha primeira namorada de forma inesperada.

Assim.

Como acontecem os amores.

Passeava pelo Masp, entre mundos nunca antes por mim imaginados.

Entre joias tupiniquins, DiCavalcantis, Volpis, Ianellis, Portinaris, Segalls e Brecherets.

E outras tantas d’além-mar, Monets, Delacroixs, Légers, Matisses, Cézannes e até Van Goghs.

Mas foi na ala dos Renoirs que o chão me faltou.

Minha primeira namorada vestia rosa, usava um lindo sapatinho de verniz.

Segurava inseguramente a cinta de cetim que lhe prendia a cintura.

E com a outra mãozinha acolhia-se junto à minha cunhadinha de azul.

Seu cabelo era ruivo.

Podia ser castanho também.

Ou loiro.

Às vezes até preto.

Tudo era uma questão de luz.

E era de luz que aquela pequena me enchia o coração, me fazia respirar fundo (tum-tum, tum-tum, tum-tum), com vontade de vomitar.

Não, não de nojo, mas de enjoo gostoso, daquele friozinho na barriga que acomete os mais desavisados.

Hoje sou avisado.

Avisado até demais.

Tão avisado que não me deixo mais levar pelas moçoilas de rosa e azul que andam por aí.

Loiras, morenas ou ruivas, elas não têm o olhar que pede colo, nem tampouco guardam mais a promessa do ‘l'avenir’.

São mais parecidas com a minha cunhadinha, olhar altivo, mãozinha assanhada querendo, subliminarmente, levantar seu saiote.

Minha primeira namorada olhou para mim, quis sorrir.

Apertou os lábios, a bochecha enrubesceu com minha investida marota, ainda que contida, embasbacado que estava ao fitá-la.

Despedi-me com a promessa de sempre lhe visitar, ainda que por instantes pudesse fazê-la sentir-se em outra dimensão, na minha dimensão (se bem que não sei se a minha namorada quereria sair de seu salão tão bonito, seu tapete tão felpudo).

Mas foi a minha primeira namorada que me levou para uma viagem ultradimensional.

Viajei para dentro daquele quadro, espiei-a por detrás da cortina até tomar coragem de vir-lhe falar: “Bom dia, senhorita! Qual é sua graça?”

Minha primeira namorada se chamava Alice.


19 de abr. de 2009

Apenasmente por isso


Inspirei-me na epígrafe de "Sagarana", obra de João Guimarães Rosa, panteão do neologismo, para batizar este blog:

 

"Lá em cima daquela serra, passa boi, passa boiada, passa gente ruim e boa, passa minha namorada."

 

No uso popular, a expressão 'passa boi, passa boiada' enseja um certo caráter relaxado e negligente, característica atribuída sobretudo a políticos, alguns empresários, oportunistas, gatunos, enfim toda a turma do 'opa lelê'.

 

Guimarães Rosa, não. O mestre utilizou a expressão para introduzir o leitor aos elementos centrais do livro: Minas Gerais, sertão, bois, vaqueiros e jagunços, o bem e o mal.

 

Esse é o tom que pretendo dar ao blog: tanto tratar do descaso de uns, quanto do poético, do sertanejo (sou rio-pretense, lembra?) de outros. Fazer arder a dicotomia e, na sua agudez intrínseca, fazê-la revelar-se. Ou romper-se de vez.

 

Não mais que isso. Nem menos. Ou, como diria Rosa, apenasmente.

 

Leia mais sobre 'Sagarana' aqui.