Mostrando postagens com marcador ética. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ética. Mostrar todas as postagens

29 de dez. de 2009

5 minutos que podem salvar vidas (vídeo)



Sobre beber e dirigir.

Sei que a abordagem desse vídeo é um tanto quanto tocante, mas se você puder assisti-lo até o fim, mesmo que impressionado com as imagens, saiba que a emoção falará mais alto e, assim, espero, você pensará antes de dirigir após alguns drinques.

Sei também que a 'responsa' comigo mesmo fica maior ainda, sobretudo após deixar aqui registrado esse vídeo e, portanto, a minha consciência acerca do assunto. Afinal, não vou negar que devo, no futuro, dirigir após algumas cervejas. Mas pelo menos tenho certeza que minha percepção da realidade já está mudada.

Espero que aproveite, que reflita e, se quiser, passe para frente.

E um ótima virada de ano, com muita saúde, felicidade e juízo!

12 de jul. de 2009

O outro e as fronteiras


Fronteira entre México e EUA

Escrevi aqui no blog duas semanas atrás sobre a questão do outro. Uma das colocações que fiz, no post intitulado "Uma Beleza Sozinha Não Faz Verão", foi: se a minha beleza depende da do outro para existir, logo é a partir do respeito ao que é diferente de mim que serei respeitado!

O outro é a nossa fronteira, a nossa referência de finitude e, ao mesmo tempo, de complementaridade. O outro pode ser o nosso calibre, a válvula de ajuste da existência. Existimos porque o outro existe. Sem ele, não somos, não repercutimos. O outro e nós somos, ao mesmo tempo, um.

Tendo em vista esse ponto de vista, proponho aqui uma reflexão sobre o outro enquanto país, nação. E, por consequência, suas fronteiras que delimitam a liberdade do ir e vir, as trocas mercantis, os idiomas, as culturas.

Há hoje, na Europa, em comparação com a primeira metade do século XX, milhares de quilômetros de fronteiras internacionais a mais (procurei no Google a quantidade exata em quilômetros, mas não encontrei). O continente conta com 50 países atualmente, número quase duas vezes maior que há 50 anos.

Pergunto: o que explica esse fato, se levarmos em consideração que desde a Primeira Grande Guerra o processo de globalização é cada vez mais presente, haja vista a própria criação e a expansão da União Europeia nas últimas duas décadas?


Muro de Berlin

Onde há luz, sempre há sombra. Ou seja, tem sido através da tentativa de equalização (seja política, econômica, social) que, na Europa, as diferenças culturais pipocam e culminam numa reivindicação, quando não numa convulsão coletiva, pelos valores culturais de cada povo.

A diversidade só é (e assim deve ser) bela quando a possibilidade de comparação com o outro é possível. Num cenário em que se tenta colocar na mesma cesta uma série de diferentes nacionalidades, culturas e valores, é natural que o azul não queira se misturar com o vermelho, o amarelo, com o verde, e vice-versa.

Assim, quanto mais globalizados formos, menos as bandeiras haverão de se misturar. A manifestação de valores culturais de um povo está intrinsecamente ligada à sua capacidade de diferenciar-se.

Talvez resida aí um dos fatores que levaram por água abaixo a tentativa de implementação dos ideais marxistas na ex-União Soviética. É natural do ser humano sentir-se único (seja enquanto indivíduo ou grupo). E numa região de dimensões continentais como a ex-URSS é natural que as diferenças étnicas se tornariam fraturas expostas cedo ou tarde.

O caso da China, uma das exceções desse meu ponto de vista, ainda foge do meu entendimento. A população fica completamente sujeita às decisões do Estado Chinês, que controla até quantos filhos seus cidadãos podem ter durante toda sua vida. A não ser que haja, nas próximas duas décadas, uma mudança radical das bases do poder chinês (e, por consequência, a inclusão de valores mais democráticos na sociedade), não vejo a cristalização do atual ritmo de crescimento econômico que a China vem experimentando nos últimos 15 anos.

Outro exemplo de exceção é Cuba. Talvez, com o fim da dinastia Castro, que acredito acontecer até 2015, seja possível que os cubanos passem a integrar a dinâmica global de trocas mercantis, científicas e tecnológicas. Sobretudo agora com a boa vontade de Barack Obama.

Poderia citar outros exemplos aqui, mas continuaria penando para achar um ponto interessante para concluir este texto. O fato é que as fronteiras vêm aumentando, assim como o número de países, apesar de a globalização fazer força para emplacar.

O próprio episódio recente da gripe suína, ou melhor, gripe tipo A, deixou escancarado nos quatro cantos do mundo que, sim, estamos dispostos a fechar nossas fronteiras na iminência de riscos de contágio de doenças estrangeiras.

Aliás, a própria etimologia da palavra ‘estrangeiro’ já encerra em si o verdadeiro sentimento que cultivamos pelos povos que não os nossos: estranhos!

É claro que, em nome da saúde pública e blablablá, devemos pensar primeiro na gente, e não nos ‘estranhos’, quer dizer, nos estrangeiros. Mas ainda assim fico aqui matutando sobre para onde apontará a resultante desse movimento mundial de proteção fronteiriça.

Não quero nem imaginar um desfecho não muito bonito. Aliás, nada com nome de desfecho deve carregar muita beleza. Afinal, se o Universo é infinito, qualquer tentativa de se pôr um fim a qualquer coisa sempre cairá por água abaixo.


Fronteira entre Bélgica e Holanda: exemplo de convivência com o outro

18 de jun. de 2009

Conferência Ethos: Carta aberta à sociedade

Acabo de participar da Conferência Internacional do Instituto Ethos, realizada em São Paulo, e publico abaixo a carta aberta divulgada agora há pouco durante o Ato Contra a Medida Provisória 458, que poderá ser sancionada ou vetada (espero!) amanhã pelo presidente Lula.


Carta aberta à sociedade

A sociedade humana vive, no século 21, os dilemas e as esperanças de uma civilização construída sobre os desatinos e os avanços incomparáveis da ciência, da arte e do conhecimento em geral sobre a natureza. Mas chegamos ao limite e precisamos de uma transformação radical na economia. Trata-se de construir uma civilização cujo modelo de produção e consumo preserve as riquezas naturais, inclua milhões de pessoas até agora à margem de qualquer progresso e garanta os recursos necessários para uma sociedade justa e sustentável, objetivo de todos nós.

O Brasil pode ser liderança neste processo por vários motivos: possui a maior floresta tropical do mundo; a matriz energética tem fontes renováveis e limpas; e os recursos ainda incontáveis da biodiversidade garantem a base para as inovações tecnológicas necessárias ao novo modelo em construção. No entanto, o que estamos fazendo com tudo isso? Ignorando nosso maior patrimônio para o século 21 e, ao agir assim, condenando o país a um papel secundário no novo mundo da sustentabilidade que está surgindo.

Nossa enorme perplexidade é verificar que, no início de um novo século, com os desafios que temos, ainda existam políticos e empresários descomprometidos que se apropriam do Estado para benefício particular, privilegiando o lucro imediato à custa do interesse maior da nação brasileira. Esta falta de visão de futuro fica ainda mais evidente com os ataques que a legislação ambiental brasileira vem sofrendo. A aprovação, no Congresso Nacional, da MP 458, conhecida como MP da Grilagem - que, entre outras medidas, promove a legalização de terras ilegais, é a mais recente demonstração de que há um projeto em andamento para desmontar a agenda ambiental duramente conquistada nos últimos anos e que dá ao Brasil posição privilegiada para enfrentar as consequências das mudanças climáticas.

A quem interessa o desmatamento? A sociedade brasileira precisa se mobilizar para separar o joio do trigo. Nós, participantes da Conferência Internacional do Ethos, podemos afirmar enfaticamente que a maioria das empresas aqui instaladas está interessada em promover negócios responsáveis e, junto com as demais forças da sociedade civil organizada, vem buscando o desenvolvimento sustentável.

Infelizmente, ainda há os que fazem o contrário. Para estas pessoas, ambiente é obstáculo. Nós , no entanto, queremos enfatizar que o Brasil hoje tem enorme importância no mundo por ser um dos países com maior patrimônio ambiental ainda preservado e, portanto, com maior potencial de desenvolvimento econômico e social sustentável. Por isso, aqui reunidos neste ato público, manifestamos nossas intenções de:

- Conclamar a Presidência da República a vetar os três artigos da MP 458, conforme a Carta Aberta da senadora Marina Silva encaminhada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva

- Conclamar o presidente Lula a assumir a liderança da agenda ambiental como central na estratégia do desenvolvimento social e econômico do Brasil;

- Conclamar o Congresso Nacional a assumir sua responsabilidade frente à agenda ambiental brasileira;

- Conclamar as empresas a incorporar a agenda ambiental como estratégia de seus negócios.


São Paulo, 18 de junho de 2009

Conferência Internacional Ethos 2009

10 de jun. de 2009

Sobre atraso e avanço, Brasil e Canadá



A revista Economist
divulgou nesta semana o ranking das melhores cidades do mundo para se viver. Vancouver, na costa oeste do Canadá, ficou em primeiro lugar. A nossa querida São Paulo empatou com a linda Rio de Janeiro na 92ª posição.

Sei que parece até injusta, mas
a comparação entre Brasil e Canadá é inevitável. Aliás, mais do que inevitável, ela é necessária.

Morei na cidadezinha de Castlegar, no Canadá, de 1992 a 1993, numa época em que o país detinha o posto de primeiro lugar (hoje é o terceiro, atrás de Noruega, em segundo, e Islândia, em primeiro) em IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.

A região onde fiquei, a Província de Colúmbia Britânica, era considerada pelo governo canadense, na época, a melhor região para se morar no país, levando-se em consideração critérios como educação, saúde e qualidade de vida. Ou seja, no melhor lugar do melhor país do mundo para se viver.

Antes do Canadá, nasci e passei minha infância e adolescência no interior de São Paulo, em São José do Rio Preto. Desde 1994, moro em São Paulo.

“Bem, mas e daí?”, você deve estar se perguntando.

E daí que o choque de culturas pelo que passei marcou minha vida para sempre.

Não, o choque não foi assim tão radical. Diria que foi até sutil. Mas ao olhar do observador mais atento (e sensível), as diferenças podem tornar-se gritantes.

Vamos a elas:

Atravessando a rua
Aprendi lá no Canadá, no início da década de 90, que basta eu sair da guia e pisar na rua para que os carros parem para eu atravessar. Simples assim. O pedestre tem prioridade. Aqui no Brasil, ainda hoje, ou seja, quase 20 anos depois, paro o carro para as pessoas atravessarem a rua e, (salvo exceções) para minha surpresa, alguns pedestres se recusam a atravessar, às vezes até me olham feio, como que se eu fosse sacaneá-los (dando-lhes um susto ou mesmo passando por cima do cidadão). Enfim, a culpa é de todos nós, não apenas do pedestre, nem do motorista, mas da forma como vimos nos tratando nos últimos tempos.

Lixo
A gente aqui ainda engatinha quando se trata de administrar nosso próprio lixo. Não, não estou falando da reciclagem de alumínio (o Brasil é campeão mundial nesse quesito graças ao contingente gigantesco de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza e, a fim de sobreviver, vivem revirando latões, lixões, quase chegam a implorar pela sua latinha de cerveja vazia na praia). Nem tampouco falo da nossa campeã reciclagem de plástico, reflexo idêntico ao caso das latas de alumínio, e por aí vai. Estou falando de produzir lixo com 'consciência', não desperdiçar, pensar (ou seja, usar a razão, presente divino) antes de imprimir, de usar o carro, de fazer compras. Os canadenses que conheci e com quem convivi em 1992 já sabiam e faziam tudo isso. Iam além: separavam em cestinhos apropriados o chamado lixo orgânico: cascas de batata, cenoura, frutas e tudo o que sobra na cozinha e nos pratos. O que faziam com isso? Bem, eles têm um cantinho no quintal, onde armazenam esse material que é utilizado nas suas hortas e jardins. E a gente aqui no Brasil querendo começar a separar em casa o jornal velho, as garrafas de plástico, as latas de alumínio... Pelo menos já é um começo. Tardio, diria, mas um começo!

Consciência ecológica
Você sabe quantas árvores são necessárias para se produzir uma tonelada de papel? Os canadenses sabem disso desde criancinhas. OK, pode parecer exagero, mas a consciência voltada para o meio ambiente no Canadá é um exemplo a ser seguido. É natural que eles também são usuários de grandes quantidades de papel, sobretudo pelo fato de serem uma nação altamente desenvolvida. Mas a conscientização ecológica é algo que já se fundiu à cultura deles. Aqui no Brasil, essa visão já está presente entre as classes A, B e C, mas ainda há muito trabalho a ser feito para se atingir toda a população. (A propósito, são necessárias 17 árvores para a produção de uma tonelada de papel.)

Direitos constitucionais
É lei levada a sério no Canadá (perdão pelo pleonasmo, mas é que no Brasil lei não é dura lex. Tá mais para dura vita) que todo cidadão tenha acesso universal a saúde, moradia e educação. O próprio Michael Moore, documentarista americano, retratou muito bem isso no filme "
Sicko-SOS", em que compara a drástica diferença entre o sistema de saúde pública do Canadá e dos Estados Unidos. Bem, prefiro nem mencionar o nosso aqui no Brasil.

Campanhas voluntárias e ONG's
A onda por aqui agora é responsabilidade social, voluntariado etc. Sim, sei que há muitas pessoas e empresas que já agem há décadas no silêncio promovendo a ajuda ao próximo. Mas é fato, e você há de concordar comigo, que no Brasil a frequência desse tema ganhou amplitude nos últimos dez anos. No Canadá, em 1992, quando lá morei, eles já estavam carecas de saber que esse tipo de ação é não só necessária, mas um dos princípios da solidariedade. Participei de diversas campanhas (até porque eu era patrocinado pelo
Rotary, instituição engajada mundialmente em ajudar o próximo) para arrecadar alimentos, roupas e remédios, além de ações para recolher materiais para reciclagem. Faço, no entanto, um mea culpa aqui: a única vez que doei sangue na minha vida foi lá no Canadá através de uma campanha da Cruz Vermelha daquele país.

Ausência de muros separando as casas e portas destrancadas dos carros
Essa não vou nem comentar.

Patriotismo
Todo canadense sabe de cor o hino nacional do seu país. Tudo bem que a letra do hino tem treze versos, se não me falha a memória, mas até eu aprendi a cantá-lo. Mas o fato que importa não é esse. O que me tocou de verdade foi ver (e ouvir) o hino ser tocado em diversas ocasiões, públicas e privadas, além de a bandeira canadense ser hasteada em comércios, residências, espaços públicos. Aqui no Brasil já vi até gente comentando ser cômico alguém ter a pachorra de saber todos os versos do nosso hino nacional. Sem dizer que muita gente acharia brega hastear uma bandeira do Brasil na frente de suas casas. Verdade ou não é? Ou vai dizer que você nunca pensou nisso?

Papel na lixeira
Nós, latinos, temos o hábito de amassar a folha de papel, fazendo aquela bola, antes de jogá-la no lixo. Uma vez, ao fazer isso, fui orientado por um canadense que amassar a folha de papel antes de dispensá-la é desnecessário, pois ocupa muito mais espaço no lixo. É só tirar a prova
em casa. Faça o teste: amasse várias folhas de papel e jogue no lixo. Contou quantas folhas couberam no cesto? E se apenas jogasse as folhas, acomodando-as no lixo? Caberia muito mais. Sem mais comentários também. ;)

Uso de água
Só vou dar um exemplo aqui: o uso de água para lavar calçadas com a mangueira. Na segunda casa em que morei no Canadá, na família Meyer para ser mais específico (morei em quatro famílias), aprendi uma lição que trago comigo até hoje. Estava eu a ajudar a limpar o carro da família numa tarde de sábado, quando me embrenhei com a mangueira d'água e comecei a lavar a calçada com o forte jato da ferramenta. Fui surpreendido pelo meu 'host father', Mr. Meyer. Ele simplesmente me explicou que é mais fácil, além de muito mais ecologicamente correto, primeiro varrer a calçada, recolher e lixo e só. Ah, quer tirar a poeira do chão? "Um pano molhado basta, Rodrigo!". Foi o que ouvi de volta.

Há mais uma centena de lições que aprendi quando morei e convivi com os canadenses, povo acolhedor, sensível e muito desenvolvido.

Fico só pensando numa coisa: se aprendi essas coisas todas já faz quase 20 anos, em que estágio os caras devem estar hoje?

Estou precisando (ou melhor, desejando -- quem leu "Carta Aberta a Gandhi" sabe o que quero dizer) voltar ao Canadá. Nem que for só a passeio. Afinal, é nossa obrigação cívica, na qualidade de brasileiros, contribuir para um país melhor. Sempre.

P.S.: Não posso deixar de comentar. A Miss Canadá é brasileira. Preciso dizer mais alguma coisa?

6 de jun. de 2009

Home: "É tarde demais para sermos pessimistas"




Assista aqui (áudio original em inglês) ou aqui (versão dublada em português) a "Home - Nosso Planeta, Nossa Casa"

Assisti ontem, na Fnac Pinheiros, em São Paulo, à estreia mundial do filme "Home - Nossa Planeta, Nossa Casa". Chocante. Vale a pena.

Tirei algumas lições, que divido aqui com vocês:

1) 20% da população mundial consome 80% dos insumos.

2) Gasta-se 12 vezes mais com defesa militar do que com ajuda humanitária.

3) A calota polar está 40% menor que 40 anos atrás.

4) O sol fornece à Terra, em apenas uma hora, a mesma quantidade de energia gasta pela humanidade em um ano. (Ou seja, vamos utilizar fontes de energia renovável como paineis solares).

5) 50% dos grãos produzidos na Terra são usados para ração ou combustível.

6) 13 milhões hectares de mata desaparecem por ano.

É TARDE DEMAIS PARA SERMOS PESSIMISTAS!

E você? Faz sua parte?

30 de mai. de 2009

O homem que Kant gostaria para o Brasil


Entrevista exclusiva para o blog


Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior

Ouça a entrevista na íntegra:


por Rodrigo Marques Barbosa
Quem seria o homem ideal para assumir um cargo político? Quem teria isenção para pensar no coletivo e agir em favor deste, senão aqueles que já têm autonomia e independência financeiras, conquistadas pré-mandato? Segundo o alemão Immanuel Kant, que viveu no século XVIII e é considerado como o último filósofo dos princípios da era moderna, os homens financeiramente independentes são os mais indicados para assumir cargos públicos em razão de poderem agir sem objetivos econômicos e apenas cultivarem interesses voltados para o bem-comum. Sim, eu também leio o que acabo de escrever e quase não levo a sério. Afinal, a imagem que temos do servidor público está distante anos-luz do que Kant propôs quase 300 anos atrás. Mas também é nossa obrigação olhar para as oportunidades que estão à nossa volta, e não apenas focar nos problemas, como as sacanagens homéricas de autoria dos nossos políticos.

'Passa boi, passa boiada' participou, na última sexta-feira (29), do seminário sobre Comunicação Corporativa promovido pela Universidade Metodista de São Paulo, no campus de São Bernardo do Campo. Um dos convidados foi o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, jornalista Miguel Jorge. Nascido em Ponte Nova, na zona da mata mineira, Jorge teve uma carreira meteórica, não em termos de tempo (apenas), mas em amplitude e importância para o Brasil. Começou em 1963 como repórter da sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo. Três anos mais tarde participou da criação do Jornal da Tarde, ocupando posições como repórter geral até subsecretário de redação. De 1977 a 1987, foi diretor de redação do jornal O Estado de S.Paulo, de onde saiu para integrar a diretoria da então recém-criada Autolatina (joint-venture entre Volkswagen e Ford). Com o fim da empresa, foi para Volkswagen do Brasil, onde assumiu o cargo de vice-presidente de assuntos legais, recursos humanos e assuntos corporativos. Em janeiro de 2001, o grupo Santander Banespa o convidou para assumir a vice-presidência de assuntos corporativos, função à qual se incorporaram as áreas de recursos humanos e assuntos jurídicos. Em março de 2007, após uma ligação do presidente Lula, Jorge aceitou seu convite para assumir o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Sem dúvida, uma trajetória marcada por sucesso e realização, alcançados no mundo corporativo, de forma isenta, e que agora, de acordo com o ideal de Kant (na imagem da pintura acima), se volta para o bem-comum.

Confira, com exclusividade, a entrevista concedida pelo jornalista e ministro Miguel Jorge ao blog 'Passa boi, passa boiada' (PBPB):


Fotos de Jô Rabelo

PBPB: O senhor começou sua carreira como repórter de jornal, participou do processo de criação da Autolatina, foi vice-presidente da Volkswagen e do banco Santander, e hoje está no Governo como Ministro de Estado. Caso semelhante é do Sr. Henrique Meirelles, atual presidente do Banco Central. Eu tive a experiência de trabalhar, indiretamente, na equipe dele no BankBoston no final da década de 90. Ele, então, estava bem colocado, era à época presidente mundial do banco. Pergunto: mesmo com a motivação do servir à Pátria, mesmo com a possibilidade de voltar ao mercado de forma ainda melhor após o período no Governo, como é abrir mão de uma posição de VP de um banco multinacional? O que motiva um profissional com tanta experiência, tanta bagagem, com pista para seguir nesse mundo corporativo, a deixar sua carreira para participar do Governo, levando-se em conta o risco e tudo o que isso pode trazer de bom e de ruim?

Miguel Jorge: Primeiramente, fui jornalista muito tempo. Atuei durante 24 anos como jornalista. Depois fiquei mais 14 anos na Volkswagen e outros seis anos e meio no Santander. Ou seja, durante boa parte da minha vida eu trabalhei com produção. Portanto, eu achava que poderia dar minha contribuição no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Se fosse um outro Ministério, dificilmente eu teria aceitado. Além disso, o fato de eu ter uma relação pessoal com o Presidente Lula me ajudou na decisão, pois também vi que ele poderia me ajudar na minha atuação como ministro. Outra coisa foi o fato de eu conhecer muito a estrutura desse ministério. Durante todos os anos na indústria automobilística, a minha relação mais forte como representante da Volkswagen – e muitas vezes como representante do próprio setor – era com esse Ministério, à época chamado apenas de Ministério da Indústria e Comércio. Depois de um determinado ponto na sua carreira, ou seja, após ter sido VP da Volkswagen, VP do Santander – que é um dos cinco maiores bancos do mundo – restam poucos lugares para ir. Portanto, mesmo que alguns pensem ser babaquice, chega uma hora que você realmente pensa que tem de dar uma contribuição. Tem de ajudar a fazer com que as coisas aconteçam com a melhor das intenções, com muita dedicação.

Da esq. à dir., ministro Miguel Jorge, prof. João Evangelista (Metodista), e Rolf-Dieter Acker, presidente da Basf América do Sul

PBPB: O Sr. se realizou ou está se realizando nisso que o motivou a ir para o Governo?

Miguel Jorge: Com todas as dificuldades que há no Governo, como, por exemplo, levar quatro meses para conseguir vacinas contra a gripe para as pessoas com mais de 60 anos é complicado. Numa empresa privada, você consegue resolver e fazer isso acontecer em 24 horas. No meu ministério, levamos quatro meses para fazer a concorrência, aprovar o plano etc. Só agora, na última terça-feira (26), a vacinação teve início. Eu fui o primeiro lá na fila para tomar a vacina. Mas mesmo com toda essa dificuldade, com toda essa burocracia da estrutura, que é muito pesada, é possível realizar muita coisa. E numa fase como a que nós estamos passando, com essa crise difícil, nós temos trabalhado muito. É claro que o país já tinha fundamentos muito fortes, mas as ações do Governo têm sido rápidas e têm nos ajudado a superar a crise. Além disso, a experiência que você traz da iniciativa privada ajuda muito nesse caso.

Alunos da Metodista durante seminário sobre Comunicação Corporativa

PBPB: Vamos falar agora não do ministro, não do executivo, mas do Miguel, do ser humano que está aí dentro, que deve estar acima de tudo isso. Como o senhor se vê frente às suas escolhas, à sua realização pessoal, profissional, às etapas por que já passou e agora ter chegado aonde está?

Miguel Jorge: É a primeira vez que me perguntam isso, apesar de eu já ter refletido muito sobre essa questão. Eu nunca tinha pensado em conquistar tudo isso. Eu comecei como repórter. Nunca pensei que de repórter eu passaria a subeditor, editor, chefe de reportagem, depois diretor de redação de um jornal como o Estadão. E de repente, num almoço aqui em São Bernardo do Campo, fui convidado pelo Sauer (Wolfgang Sauer, ex-presidente da VW e da Autolatina). Realmente fui surpreendido por isso. Enquanto ele (Sauer) me contava a história do que seria a Autolatina, eu pensava ‘essa vai ser a grande matéria de domingo do Estadão’. Mas não. Quando ele terminou a conversa, me disse: “eu queria que você fizesse parte da equipe de direção dessa empresa”. A mesma coisa aconteceu quando eu fui para o Santander. E também quando recebi uma ligação do presidente Lula: “Miguel, você pode vir aqui a Brasília? Tenho um assunto para tratar com você.” E eu não tinha a menor ideia sobre o que seria a conversa, porque não sabia que meu antecessor estava então de saída. Eu sou neto de libaneses por parte de pai, e os libaneses têm uma expressão chamada ‘maktub’, que quer dizer ‘estava escrito’. Eu sou um pouco fatalista. Eu nunca planejei nada. As coisas aconteceram. E aconteceram de uma maneira muito maior do que eu poderia um dia imaginar na minha vida.