29 de dez. de 2009
12 de jul. de 2009
O outro e as fronteiras

Fronteira entre México e EUA
Escrevi aqui no blog duas semanas atrás sobre a questão do outro. Uma das colocações que fiz, no post intitulado "Uma Beleza Sozinha Não Faz Verão", foi: se a minha beleza depende da do outro para existir, logo é a partir do respeito ao que é diferente de mim que serei respeitado!
O outro é a nossa fronteira, a nossa referência de finitude e, ao mesmo tempo, de complementaridade. O outro pode ser o nosso calibre, a válvula de ajuste da existência. Existimos porque o outro existe. Sem ele, não somos, não repercutimos. O outro e nós somos, ao mesmo tempo, um.
Tendo em vista esse ponto de vista, proponho aqui uma reflexão sobre o outro enquanto país, nação. E, por consequência, suas fronteiras que delimitam a liberdade do ir e vir, as trocas mercantis, os idiomas, as culturas.
Há hoje, na Europa, em comparação com a primeira metade do século XX, milhares de quilômetros de fronteiras internacionais a mais (procurei no Google a quantidade exata em quilômetros, mas não encontrei). O continente conta com 50 países atualmente, número quase duas vezes maior que há 50 anos.
Pergunto: o que explica esse fato, se levarmos em consideração que desde a Primeira Grande Guerra o processo de globalização é cada vez mais presente, haja vista a própria criação e a expansão da União Europeia nas últimas duas décadas?

Muro de Berlin
Onde há luz, sempre há sombra. Ou seja, tem sido através da tentativa de equalização (seja política, econômica, social) que, na Europa, as diferenças culturais pipocam e culminam numa reivindicação, quando não numa convulsão coletiva, pelos valores culturais de cada povo.
A diversidade só é (e assim deve ser) bela quando a possibilidade de comparação com o outro é possível. Num cenário em que se tenta colocar na mesma cesta uma série de diferentes nacionalidades, culturas e valores, é natural que o azul não queira se misturar com o vermelho, o amarelo, com o verde, e vice-versa.
Assim, quanto mais globalizados formos, menos as bandeiras haverão de se misturar. A manifestação de valores culturais de um povo está intrinsecamente ligada à sua capacidade de diferenciar-se.
Talvez resida aí um dos fatores que levaram por água abaixo a tentativa de implementação dos ideais marxistas na ex-União Soviética. É natural do ser humano sentir-se único (seja enquanto indivíduo ou grupo). E numa região de dimensões continentais como a ex-URSS é natural que as diferenças étnicas se tornariam fraturas expostas cedo ou tarde.
O caso da China, uma das exceções desse meu ponto de vista, ainda foge do meu entendimento. A população fica completamente sujeita às decisões do Estado Chinês, que controla até quantos filhos seus cidadãos podem ter durante toda sua vida. A não ser que haja, nas próximas duas décadas, uma mudança radical das bases do poder chinês (e, por consequência, a inclusão de valores mais democráticos na sociedade), não vejo a cristalização do atual ritmo de crescimento econômico que a China vem experimentando nos últimos 15 anos.
Outro exemplo de exceção é Cuba. Talvez, com o fim da dinastia Castro, que acredito acontecer até 2015, seja possível que os cubanos passem a integrar a dinâmica global de trocas mercantis, científicas e tecnológicas. Sobretudo agora com a boa vontade de Barack Obama.
Poderia citar outros exemplos aqui, mas continuaria penando para achar um ponto interessante para concluir este texto. O fato é que as fronteiras vêm aumentando, assim como o número de países, apesar de a globalização fazer força para emplacar.
O próprio episódio recente da gripe suína, ou melhor, gripe tipo A, deixou escancarado nos quatro cantos do mundo que, sim, estamos dispostos a fechar nossas fronteiras na iminência de riscos de contágio de doenças estrangeiras.
Aliás, a própria etimologia da palavra ‘estrangeiro’ já encerra em si o verdadeiro sentimento que cultivamos pelos povos que não os nossos: estranhos!
É claro que, em nome da saúde pública e blablablá, devemos pensar primeiro na gente, e não nos ‘estranhos’, quer dizer, nos estrangeiros. Mas ainda assim fico aqui matutando sobre para onde apontará a resultante desse movimento mundial de proteção fronteiriça.
Não quero nem imaginar um desfecho não muito bonito. Aliás, nada com nome de desfecho deve carregar muita beleza. Afinal, se o Universo é infinito, qualquer tentativa de se pôr um fim a qualquer coisa sempre cairá por água abaixo.

Fronteira entre Bélgica e Holanda: exemplo de convivência com o outro
30 de abr. de 2009
Pac-man paraguaio e as novas regras do xadrez
7 de abr. de 2009
Berlusconi X Freud: is it the mother's fault?


by Rodrigo Marques Barbosa
Freud postulated in his works that all figures of authority in our lives are the representation of our own fathers transvested.
We can say that the leader of the nation where we live – being the president, the prime minister, the king, the dictator – is one of those figures of authority.
A not-well-resolved relationship with our parents and, by inference, with other individuals who exercise authority over us (including bosses and the police) can leave indelible trauma in our lives (citing Freud again).
Having said that, I wonder how Italians are dealing with their leader’s recent rhetorical abuse. Italian prime minister Silvio Berlusconi has shown the world once again his arrogance during the G20 meeting, which brought together world leaders earlier this month in London.
There were several recent episodes in which Berlusconi broke the protocol, committed gaffes and disrespected the world by mocking on nations’ representatives. What do Italians have to say about their prime minister’s behavior? After all, by analogy to Freud’s theory, it is something like watching your own father being rude and mean to the entire neighborhood.
Even the queen of England, Elisabeth II lost her temper with Berlusconi. She jumped out of the chair when the Italian prime minister started yelling to greet (by far) the U.S. president, Barack Obama. “What is it? Why does he have to shout?”, she said, shrugging her shoulders.
The next day was not very different. Continuing with the agenda, the world leaders headed to Strasbourg, France. Germany’s chancellor Angela Merkel, one of the hosts of the event, was welcoming the VIP guests on a red carpet. When Berlusconi arrived, he got off the car speaking on his mobile. He then ironically waved to Merkel, turned his backs to her and kept his phone conversation for more than 30 minutes. The meeting started without Italy’s representative. I wonder if Berlusconi suffered from maternal rejection and now is trying to compensate this lack by repeating the same pattern of his childhood.
Besides all issues we already have to face in our everyday’s lives, we still have to put up with the tyranny of the leader of one of the richest nations on Earth. And as I said, the issue is not about Berlusconi’s individual attitudes, but the collective representation of his acts. After all, it is like Italy was mocking on the rest of the world, isn’t it? Would that be the real desired manifestation of the Italian people?
My ultimate anger and the motivation to write this article was Berlusconi's express refusal of the aid offered by several countries to the victims of the earthquakes that have shaken Italy in the last two days.
Okay, I agree that if there is no need for help yet, then those who want to help must direct their efforts to the people who really need help. But what did bother me was Berlusconi’s rhetoric speech. Take a look at his recent statements:
"Italy is alone capable of dealing with the demands." (Would this be a remnant of his pre-infancy, when his mother neglected him with attention?)
"We are a proud people. Thank you, but we are self-sufficient." (Ditto)
Berlusconi said today that 30 million Euros will be directed to help the earthquake victims. But he said later that he will request several hundred million Euros to the European funds.
So will they need help or not? It beats me.
Berlusconi X Freud: a culpa é da mãe?


por Rodrigo Marques Barbosa
Freud já postulou que todas as figuras de autoridade são a representação da nossa própria figura paterna travestida.
Podemos dizer que o líder da nação onde vivemos, seja o presidente, o primeiro ministro, o rei, o ditador, é uma dessas figuras de autoridade.
Uma relação não bem resolvida com nossos pais e, por inferência freudiana, com os demais sujeitos que exercem autoridade sobre nós (chefes e policiais inclusive) pode deixar traumas indeléveis em nossa existência.
Pois é aí que entra minha indignação com o abuso retórico de Silvio Berlusconi, primeiro-ministro italiano. Comecei a notar sua petulância ao acompanhar o noticiário sobre o encontro do G20, que reuniu os principais líderes mundiais em Londres no início do mês.
Houve vários episódios em que Berlusconi quebrou o protocolo, cometeu gafes e desrespeitou a todos ao desdenhar dos representantes ali reunidos. Me pergunto sobre como os italianos estão reagindo perante o comportamento de seu primeiro-ministro. Afinal, seguindo o raciocínio freudiano, é como se eles (italianos) vissem seu próprio pai sendo grosso e mal-educado com a vizinhança inteira.
A própria rainha da Inglaterra, Elisabeth II, não se conteve em sua natural discrição britânica e, ao se assustar com um grito de Berlusconi cumprimentando (de longe) o presidente americano, Barack Obama, pulou da cadeira e falou em não alto e bom tom: “por que gritar tanto assim?”.
Como se não bastasse, no dia seguinte, já na cidade de Estrasburgo, na França, o italiano (de extrema direita) deixou a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, uma das anfitriãs do evento, desconcertada. Merkel recepcionava, sobre tapete vermelho, os líderes que chegavam de carro para a reunião. Na vez de Berlusconi, ele desceu do carro falando ao celular, acenou ironicamente para Merkel, virou as costas e continuou sua conversa por mais de 30 minutos. Tiveram de começar a reunião sem a presença do italiano. Será que o manda-chuva da terra de Dante sofreu rejeição materna e agora tenta compensar tal carência repetindo o mesmo padrão de sua infância?
Já não bastassem os desaforos a que estamos sujeitos no dia-a-dia, ainda temos de presenciar o líder de uma das nações mais ricas do planeta fazendo desaforos em público. A questão não é a atitude individual de Berlusconi, mas sim a representação coletiva de tudo isso. Afinal, é como se a Itália desdenhasse do resto do mundo. Ou não é? E mais, será que é esse o desejo de manifestação do povo italiano?
A gota d’água para minha indignação e que me levou a escrever este artigo foi a recente recusa expressa de Berlusconi da ajuda oferecida por outros países às vítimas dos terremotos que abalaram a Itália nesta semana.
Tudo bem, concordo que se não há ainda necessidade de ajuda, é melhor mesmo a ajuda possa ser direcionada a quem realmente precisa. Mas o que me incomodou foi, na verdade, a retórica do italiano. Senão, veja as suas declarações na imprensa:
“A Itália é capaz de responder sozinha às exigências." (Seria esse um resquício de sua pré-infância, quando sua mãe não lhe dava a devida atenção?)
"Somos um povo altivo. Agradeço, mas somos suficientes sozinhos." (idem)
Berlusconi disse na terça-feira (7) que 30 milhões de euros serão utilizados para socorrer os desabrigados. Porém, ele afirmou que posteriormente será feito um pedido aos fundos europeus que pode chegar a algumas centenas de milhões de euros.
Ué? Então quer dizer que vai precisar de ajuda? Vai entender.

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