7 de abr de 2009

Berlusconi X Freud: a culpa é da mãe?


por Rodrigo Marques Barbosa

(click here for English)

Freud já postulou que todas as figuras de autoridade são a representação da nossa própria figura paterna travestida.

Podemos dizer que o líder da nação onde vivemos, seja o presidente, o primeiro ministro, o rei, o ditador, é uma dessas figuras de autoridade.

Uma relação não bem resolvida com nossos pais e, por inferência freudiana, com os demais sujeitos que exercem autoridade sobre nós (chefes e policiais inclusive) pode deixar traumas indeléveis em nossa existência.

Pois é aí que entra minha indignação com o abuso retórico de Silvio Berlusconi, primeiro-ministro italiano. Comecei a notar sua petulância ao acompanhar o noticiário sobre o encontro do G20, que reuniu os principais líderes mundiais em Londres no início do mês.

Houve vários episódios em que Berlusconi quebrou o protocolo, cometeu gafes e desrespeitou a todos ao desdenhar dos representantes ali reunidos. Me pergunto sobre como os italianos estão reagindo perante o comportamento de seu primeiro-ministro. Afinal, seguindo o raciocínio freudiano, é como se eles (italianos) vissem seu próprio pai sendo grosso e mal-educado com a vizinhança inteira.

A própria rainha da Inglaterra, Elisabeth II, não se conteve em sua natural discrição britânica e, ao se assustar com um grito de Berlusconi cumprimentando (de longe) o presidente americano, Barack Obama, pulou da cadeira e falou em não alto e bom tom: “por que gritar tanto assim?”.

Como se não bastasse, no dia seguinte, já na cidade de Estrasburgo, na França, o italiano (de extrema direita) deixou a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, uma das anfitriãs do evento, desconcertada. Merkel recepcionava, sobre tapete vermelho, os líderes que chegavam de carro para a reunião. Na vez de Berlusconi, ele desceu do carro falando ao celular, acenou ironicamente para Merkel, virou as costas e continuou sua conversa por mais de 30 minutos. Tiveram de começar a reunião sem a presença do italiano. Será que o manda-chuva da terra de Dante sofreu rejeição materna e agora tenta compensar tal carência repetindo o mesmo padrão de sua infância?

Já não bastassem os desaforos a que estamos sujeitos no dia-a-dia, ainda temos de presenciar o líder de uma das nações mais ricas do planeta fazendo desaforos em público. A questão não é a atitude individual de Berlusconi, mas sim a representação coletiva de tudo isso. Afinal, é como se a Itália desdenhasse do resto do mundo. Ou não é? E mais, será que é esse o desejo de manifestação do povo italiano?

A gota d’água para minha indignação e que me levou a escrever este artigo foi a recente recusa expressa de Berlusconi da ajuda oferecida por outros países às vítimas dos terremotos que abalaram a Itália nesta semana.

Tudo bem, concordo que se não há ainda necessidade de ajuda, é melhor mesmo a ajuda possa ser direcionada a quem realmente precisa. Mas o que me incomodou foi, na verdade, a retórica do italiano. Senão, veja as suas declarações na imprensa:

“A Itália é capaz de responder sozinha às exigências."  (Seria esse um resquício de sua pré-infância, quando sua mãe não lhe dava a devida atenção?)

"Somos um povo altivo. Agradeço, mas somos suficientes sozinhos." (idem)

Berlusconi disse na terça-feira (7) que 30 milhões de euros serão utilizados para socorrer os desabrigados. Porém, ele afirmou que posteriormente será feito um pedido aos fundos europeus que pode chegar a algumas centenas de milhões de euros.

Ué? Então quer dizer que vai precisar de ajuda? Vai entender.

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