22 de jun. de 2009

Blog, um sismógrafo


Peguei-me pensando dia desses sobre por que escrevo a respeito de tudo e nada aqui em 'Passa boi, passa boiada'.

A própria descrição que criei para o blog reflete isso: "Blog sobre nada. Já que tudo é nada, logo, sobre tudo também".

José Saramago, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, que também escreve um blog, traduziu com maestria esse meu (e dele) sentimento sobre escrever um blog:

"Os sismógrafos não escolhem os terremotos, reagem aos que vão ocorrendo, e o blog é isso, um sismógrafo."


Pronto, traduzido. E, agora, justificado. Pelo menos para mim.

Telefónica nunca mais


Uma inusitada mas bem-vinda decisão da Anatel lavou minha alma hoje: a Telefónica está impedida (mesmo que temporariamente) de vender novas assinaturas do seu serviço de internet Speedy.

Já não sou cliente da Telefónica há anos. Antes mesmo de existirem serviços de banda larga de internet, já havia cancelado uma linha de telefone nos idos de 2000 e me comprometido a nunca mais ser cliente deles.

A falta de respeito na central de atendimento, o descaso com minhas reclamações, os valores cobrados a mais, a arrogância dos executivos em entrevistas na imprensa, enfim, sofri na mão deles e, como não sou masoquista, caí fora sem titubear.

Uma vez, num processo seletivo para um novo emprego em São Paulo, quase fui desclassificado porque a empresa contratante identificou um apontamento no meu nome na Serasa. Fui investigar o que era (afinal, não tinha a mínima ideia do que poderia ser). Descobri que a Telefónica havia negativado meu nome em razão de alguns reais que ficaram em aberto após a data do meu cancelamento da linha em 2000.

Detalhe: eles nunca me informaram que havia tal saldo em aberto, não me comunicaram o envio dos meus dados para a Serasa e, pasmem, quando lhes contatei para acertar a ‘dívida’ de poucos reais e solicitar que meu nome fosse excluído do cadastro de maus pagadores imediatamente, eles fizeram corpo mole, não se prontificaram a resolver o meu problema e ainda se defenderam dizendo que o interesse era meu, logo, eles apenas seguiriam os procedimentos internos para verificar o ocorrido.

Felizmente, consegui o emprego: a empresa compreendeu a situação e me deu o tempo necessário para achar uma solução.

Sei que minha revolta contra eles, Telefónica, não lhes faz nenhuma cócega. Mas me sinto aliviado ao ver o vexame pelo que estão passando hoje. Afinal, tem coisa pior do que alguém lhe impedir de vender seus produtos e serviços?

Já pensou o dono da barraca de ovos da feira aqui do bairro ser interpelado pela Vigilância Sanitária e proibido de vender suas cartelas por conta de suspeita de contaminação dos ovos? O que ele, feirante, teria a dizer a seus filhos e a seu travesseiro quando chegasse em casa à noite?

Pois é isso que falta à Telefónica: vergonha na cara, consciência e dignidade.

Telefónica nunca mais.

A propósito 1: Desde 2000 sou cliente Embratel e Net. Estou feliz e recomendo.

A propósito 2: Enquanto escrevo este post, vejo o SP TV e me deparo com a seguinte notícia: “Mesmo impedida, Telefónica continua vendendo Speedy”. Bem a cara da empresa mesmo.


Montagem: 'Passa boi, passa boiada'

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Leia outras da série 'nunca mais':

Oi: portabilidade com a porta na cabeça
Livrai-me de todos os males, inclusive da Livraria Saraiva

19 de jun. de 2009

Obama acaba com a mosca da Folha

O que não faz o poder da edição, hein? ;-)

18 de jun. de 2009

Conferência Ethos: Carta aberta à sociedade

Acabo de participar da Conferência Internacional do Instituto Ethos, realizada em São Paulo, e publico abaixo a carta aberta divulgada agora há pouco durante o Ato Contra a Medida Provisória 458, que poderá ser sancionada ou vetada (espero!) amanhã pelo presidente Lula.


Carta aberta à sociedade

A sociedade humana vive, no século 21, os dilemas e as esperanças de uma civilização construída sobre os desatinos e os avanços incomparáveis da ciência, da arte e do conhecimento em geral sobre a natureza. Mas chegamos ao limite e precisamos de uma transformação radical na economia. Trata-se de construir uma civilização cujo modelo de produção e consumo preserve as riquezas naturais, inclua milhões de pessoas até agora à margem de qualquer progresso e garanta os recursos necessários para uma sociedade justa e sustentável, objetivo de todos nós.

O Brasil pode ser liderança neste processo por vários motivos: possui a maior floresta tropical do mundo; a matriz energética tem fontes renováveis e limpas; e os recursos ainda incontáveis da biodiversidade garantem a base para as inovações tecnológicas necessárias ao novo modelo em construção. No entanto, o que estamos fazendo com tudo isso? Ignorando nosso maior patrimônio para o século 21 e, ao agir assim, condenando o país a um papel secundário no novo mundo da sustentabilidade que está surgindo.

Nossa enorme perplexidade é verificar que, no início de um novo século, com os desafios que temos, ainda existam políticos e empresários descomprometidos que se apropriam do Estado para benefício particular, privilegiando o lucro imediato à custa do interesse maior da nação brasileira. Esta falta de visão de futuro fica ainda mais evidente com os ataques que a legislação ambiental brasileira vem sofrendo. A aprovação, no Congresso Nacional, da MP 458, conhecida como MP da Grilagem - que, entre outras medidas, promove a legalização de terras ilegais, é a mais recente demonstração de que há um projeto em andamento para desmontar a agenda ambiental duramente conquistada nos últimos anos e que dá ao Brasil posição privilegiada para enfrentar as consequências das mudanças climáticas.

A quem interessa o desmatamento? A sociedade brasileira precisa se mobilizar para separar o joio do trigo. Nós, participantes da Conferência Internacional do Ethos, podemos afirmar enfaticamente que a maioria das empresas aqui instaladas está interessada em promover negócios responsáveis e, junto com as demais forças da sociedade civil organizada, vem buscando o desenvolvimento sustentável.

Infelizmente, ainda há os que fazem o contrário. Para estas pessoas, ambiente é obstáculo. Nós , no entanto, queremos enfatizar que o Brasil hoje tem enorme importância no mundo por ser um dos países com maior patrimônio ambiental ainda preservado e, portanto, com maior potencial de desenvolvimento econômico e social sustentável. Por isso, aqui reunidos neste ato público, manifestamos nossas intenções de:

- Conclamar a Presidência da República a vetar os três artigos da MP 458, conforme a Carta Aberta da senadora Marina Silva encaminhada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva

- Conclamar o presidente Lula a assumir a liderança da agenda ambiental como central na estratégia do desenvolvimento social e econômico do Brasil;

- Conclamar o Congresso Nacional a assumir sua responsabilidade frente à agenda ambiental brasileira;

- Conclamar as empresas a incorporar a agenda ambiental como estratégia de seus negócios.


São Paulo, 18 de junho de 2009

Conferência Internacional Ethos 2009

15 de jun. de 2009

Twitter e Ahmadinejad: Um marco na história das comunicações



Foi um tweet que levou ao mundo, nesse último fim de semana, a notícia da confirmação da vitória de Ahmadinejad nas eleições presidenciais do Irã.

Com isso, um marco importante na história das comunicações ganha vida: pela primeira vez, uma notícia de importância internacional foi dada pela Internet, em primeira mão, por pessoas, indivíduos, internautas, anônimos ou não. Para ser mais específico, pelo Twitter.

Chega a vez em que a nova mídia bate a velha mídia. E quem mais sentiu o golpe foi a americana CNN, que detém (ou detinha) a reputação de sempre dar notícias com exclusividade, como por exemplo o 11 de Setembro, a operação Tempestade no Deserto, entre outras. (Veja mais no site do Mashable, em inglês)

As vias tradicionais de divulgação de notícias, sejam elas os maiores jornais do mundo e seus sites, agências de notícias, rádios e televisões levaram do Twitter, usando o jargão jornalístico, um inusitado furo de reportagem.

Por mais irrelevante que o fato de a velha mídia perder para a nova possa parecer, trata-se de um fenômeno que certamente mudará (e já está mudando) a forma como as pessoas se comunicam.

Trata-se ainda de um movimento nunca antes visto pela humanidade: a capacidade de qualquer pessoa, em virtualmente qualquer lugar, poder gerar notícias, conteúdo e tudo o mais que possa interessar a uma terceira parte, independentemente do lugar de onde esta esteja recebendo a informação.

Não só as empresas de comunicação, mas também qualquer empresa ou organização -- grande, média ou pequena -- deverão se preparar para essa mudança e se dedicar a uma reflexão de como isso poderá impactar suas estratégias de negócios.

Cada vez mais, o boca-a-boca, o tweet-a-tweet terão peso em escala nas decisões de compra, na formação de opinião, na percepção de marcas por parte de consumidores em todo o mundo.

É certo que aqueles que puderem vislumbrar esse futuro e antecipar tendências e direções sairão na frente nessa nova corrida cibernética.

Ainda há muito mais por vir. Afinal, a velocidade da luz já está mesmo ficando para trás.

Preparemo-nos para a Nova Era. E que ela seja muito bem-vinda.

13 de jun. de 2009

Com calça ou sem calça?

SeuOrkut.com.br

Essa é uma brincadeira de criança. Deu até saudade da minha infância.

Olha só se não fica engraçado cantar a primeira estrofe da canção "Carinhoso", de Pixinguinha, intercalando os versos com os termos "com calça" e "sem calça".

Para ouvir a música, clique no botão 'play' no box abaixo: marisa monte e paulinho da viola - Carinhoso


Dica: só cantarole a letra da música. O 'com calça' e o 'sem calça' devem ser apenas 'falados':

SeuOrkut.com.br

Carinhoso

Pixinguinha

Meu coração
com calça

Não sei por que
sem calça

Bate feliz
com calça

Quando te vê
sem calça

E os meus olhos
com calça

Ficam sorrindo
sem calça

E pelas ruas
com calça

Vão te seguindo
sem calça

Mas mesmo assim
com calça

Foges de mim
sem calça

Confira aqui a letra completa.

E se quiser, confira o vídeo com a versão interpretada por Marisa Monte no Youtube:

10 de jun. de 2009

Sobre atraso e avanço, Brasil e Canadá



A revista Economist
divulgou nesta semana o ranking das melhores cidades do mundo para se viver. Vancouver, na costa oeste do Canadá, ficou em primeiro lugar. A nossa querida São Paulo empatou com a linda Rio de Janeiro na 92ª posição.

Sei que parece até injusta, mas
a comparação entre Brasil e Canadá é inevitável. Aliás, mais do que inevitável, ela é necessária.

Morei na cidadezinha de Castlegar, no Canadá, de 1992 a 1993, numa época em que o país detinha o posto de primeiro lugar (hoje é o terceiro, atrás de Noruega, em segundo, e Islândia, em primeiro) em IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.

A região onde fiquei, a Província de Colúmbia Britânica, era considerada pelo governo canadense, na época, a melhor região para se morar no país, levando-se em consideração critérios como educação, saúde e qualidade de vida. Ou seja, no melhor lugar do melhor país do mundo para se viver.

Antes do Canadá, nasci e passei minha infância e adolescência no interior de São Paulo, em São José do Rio Preto. Desde 1994, moro em São Paulo.

“Bem, mas e daí?”, você deve estar se perguntando.

E daí que o choque de culturas pelo que passei marcou minha vida para sempre.

Não, o choque não foi assim tão radical. Diria que foi até sutil. Mas ao olhar do observador mais atento (e sensível), as diferenças podem tornar-se gritantes.

Vamos a elas:

Atravessando a rua
Aprendi lá no Canadá, no início da década de 90, que basta eu sair da guia e pisar na rua para que os carros parem para eu atravessar. Simples assim. O pedestre tem prioridade. Aqui no Brasil, ainda hoje, ou seja, quase 20 anos depois, paro o carro para as pessoas atravessarem a rua e, (salvo exceções) para minha surpresa, alguns pedestres se recusam a atravessar, às vezes até me olham feio, como que se eu fosse sacaneá-los (dando-lhes um susto ou mesmo passando por cima do cidadão). Enfim, a culpa é de todos nós, não apenas do pedestre, nem do motorista, mas da forma como vimos nos tratando nos últimos tempos.

Lixo
A gente aqui ainda engatinha quando se trata de administrar nosso próprio lixo. Não, não estou falando da reciclagem de alumínio (o Brasil é campeão mundial nesse quesito graças ao contingente gigantesco de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza e, a fim de sobreviver, vivem revirando latões, lixões, quase chegam a implorar pela sua latinha de cerveja vazia na praia). Nem tampouco falo da nossa campeã reciclagem de plástico, reflexo idêntico ao caso das latas de alumínio, e por aí vai. Estou falando de produzir lixo com 'consciência', não desperdiçar, pensar (ou seja, usar a razão, presente divino) antes de imprimir, de usar o carro, de fazer compras. Os canadenses que conheci e com quem convivi em 1992 já sabiam e faziam tudo isso. Iam além: separavam em cestinhos apropriados o chamado lixo orgânico: cascas de batata, cenoura, frutas e tudo o que sobra na cozinha e nos pratos. O que faziam com isso? Bem, eles têm um cantinho no quintal, onde armazenam esse material que é utilizado nas suas hortas e jardins. E a gente aqui no Brasil querendo começar a separar em casa o jornal velho, as garrafas de plástico, as latas de alumínio... Pelo menos já é um começo. Tardio, diria, mas um começo!

Consciência ecológica
Você sabe quantas árvores são necessárias para se produzir uma tonelada de papel? Os canadenses sabem disso desde criancinhas. OK, pode parecer exagero, mas a consciência voltada para o meio ambiente no Canadá é um exemplo a ser seguido. É natural que eles também são usuários de grandes quantidades de papel, sobretudo pelo fato de serem uma nação altamente desenvolvida. Mas a conscientização ecológica é algo que já se fundiu à cultura deles. Aqui no Brasil, essa visão já está presente entre as classes A, B e C, mas ainda há muito trabalho a ser feito para se atingir toda a população. (A propósito, são necessárias 17 árvores para a produção de uma tonelada de papel.)

Direitos constitucionais
É lei levada a sério no Canadá (perdão pelo pleonasmo, mas é que no Brasil lei não é dura lex. Tá mais para dura vita) que todo cidadão tenha acesso universal a saúde, moradia e educação. O próprio Michael Moore, documentarista americano, retratou muito bem isso no filme "
Sicko-SOS", em que compara a drástica diferença entre o sistema de saúde pública do Canadá e dos Estados Unidos. Bem, prefiro nem mencionar o nosso aqui no Brasil.

Campanhas voluntárias e ONG's
A onda por aqui agora é responsabilidade social, voluntariado etc. Sim, sei que há muitas pessoas e empresas que já agem há décadas no silêncio promovendo a ajuda ao próximo. Mas é fato, e você há de concordar comigo, que no Brasil a frequência desse tema ganhou amplitude nos últimos dez anos. No Canadá, em 1992, quando lá morei, eles já estavam carecas de saber que esse tipo de ação é não só necessária, mas um dos princípios da solidariedade. Participei de diversas campanhas (até porque eu era patrocinado pelo
Rotary, instituição engajada mundialmente em ajudar o próximo) para arrecadar alimentos, roupas e remédios, além de ações para recolher materiais para reciclagem. Faço, no entanto, um mea culpa aqui: a única vez que doei sangue na minha vida foi lá no Canadá através de uma campanha da Cruz Vermelha daquele país.

Ausência de muros separando as casas e portas destrancadas dos carros
Essa não vou nem comentar.

Patriotismo
Todo canadense sabe de cor o hino nacional do seu país. Tudo bem que a letra do hino tem treze versos, se não me falha a memória, mas até eu aprendi a cantá-lo. Mas o fato que importa não é esse. O que me tocou de verdade foi ver (e ouvir) o hino ser tocado em diversas ocasiões, públicas e privadas, além de a bandeira canadense ser hasteada em comércios, residências, espaços públicos. Aqui no Brasil já vi até gente comentando ser cômico alguém ter a pachorra de saber todos os versos do nosso hino nacional. Sem dizer que muita gente acharia brega hastear uma bandeira do Brasil na frente de suas casas. Verdade ou não é? Ou vai dizer que você nunca pensou nisso?

Papel na lixeira
Nós, latinos, temos o hábito de amassar a folha de papel, fazendo aquela bola, antes de jogá-la no lixo. Uma vez, ao fazer isso, fui orientado por um canadense que amassar a folha de papel antes de dispensá-la é desnecessário, pois ocupa muito mais espaço no lixo. É só tirar a prova
em casa. Faça o teste: amasse várias folhas de papel e jogue no lixo. Contou quantas folhas couberam no cesto? E se apenas jogasse as folhas, acomodando-as no lixo? Caberia muito mais. Sem mais comentários também. ;)

Uso de água
Só vou dar um exemplo aqui: o uso de água para lavar calçadas com a mangueira. Na segunda casa em que morei no Canadá, na família Meyer para ser mais específico (morei em quatro famílias), aprendi uma lição que trago comigo até hoje. Estava eu a ajudar a limpar o carro da família numa tarde de sábado, quando me embrenhei com a mangueira d'água e comecei a lavar a calçada com o forte jato da ferramenta. Fui surpreendido pelo meu 'host father', Mr. Meyer. Ele simplesmente me explicou que é mais fácil, além de muito mais ecologicamente correto, primeiro varrer a calçada, recolher e lixo e só. Ah, quer tirar a poeira do chão? "Um pano molhado basta, Rodrigo!". Foi o que ouvi de volta.

Há mais uma centena de lições que aprendi quando morei e convivi com os canadenses, povo acolhedor, sensível e muito desenvolvido.

Fico só pensando numa coisa: se aprendi essas coisas todas já faz quase 20 anos, em que estágio os caras devem estar hoje?

Estou precisando (ou melhor, desejando -- quem leu "Carta Aberta a Gandhi" sabe o que quero dizer) voltar ao Canadá. Nem que for só a passeio. Afinal, é nossa obrigação cívica, na qualidade de brasileiros, contribuir para um país melhor. Sempre.

P.S.: Não posso deixar de comentar. A Miss Canadá é brasileira. Preciso dizer mais alguma coisa?

6 de jun. de 2009

Home: "É tarde demais para sermos pessimistas"




Assista aqui (áudio original em inglês) ou aqui (versão dublada em português) a "Home - Nosso Planeta, Nossa Casa"

Assisti ontem, na Fnac Pinheiros, em São Paulo, à estreia mundial do filme "Home - Nossa Planeta, Nossa Casa". Chocante. Vale a pena.

Tirei algumas lições, que divido aqui com vocês:

1) 20% da população mundial consome 80% dos insumos.

2) Gasta-se 12 vezes mais com defesa militar do que com ajuda humanitária.

3) A calota polar está 40% menor que 40 anos atrás.

4) O sol fornece à Terra, em apenas uma hora, a mesma quantidade de energia gasta pela humanidade em um ano. (Ou seja, vamos utilizar fontes de energia renovável como paineis solares).

5) 50% dos grãos produzidos na Terra são usados para ração ou combustível.

6) 13 milhões hectares de mata desaparecem por ano.

É TARDE DEMAIS PARA SERMOS PESSIMISTAS!

E você? Faz sua parte?

2 de jun. de 2009

Drummond para o meu epitáfio

E também condolências às vítimas do voo AF447



Encarar o tema da morte, por mais mórbido ou desagradável que seja, nos é inevitável.

O trágico acidente de hoje com o avião da Air France mexe com o fundo da nossa consciência e nos faz refletir sobre quão sensíveis, pequenos, frágeis somos e, ao mesmo tempo, tão queridos, únicos e especiais.

Apesar de, no mundo, morrerem anualmente mais pessoas vítimas de picadas de abelhas do que de acidentes aéreos, só nos deparamos com a morte, a única certeza que temos sobre a existência, quando ela nos choca como nos chocou o noticiário nesta manhã.

Por isso, quero aqui, além de deixar minha homenagem às 228 vítimas do voo 447 da Air France, registrar o que desejo que seja lapidado no meu epitáfio: um poema de Drummond.


Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

Foto de Rodrigo Marques Barbosa, litoral de SP

30 de mai. de 2009

O homem que Kant gostaria para o Brasil


Entrevista exclusiva para o blog


Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior

Ouça a entrevista na íntegra:


por Rodrigo Marques Barbosa
Quem seria o homem ideal para assumir um cargo político? Quem teria isenção para pensar no coletivo e agir em favor deste, senão aqueles que já têm autonomia e independência financeiras, conquistadas pré-mandato? Segundo o alemão Immanuel Kant, que viveu no século XVIII e é considerado como o último filósofo dos princípios da era moderna, os homens financeiramente independentes são os mais indicados para assumir cargos públicos em razão de poderem agir sem objetivos econômicos e apenas cultivarem interesses voltados para o bem-comum. Sim, eu também leio o que acabo de escrever e quase não levo a sério. Afinal, a imagem que temos do servidor público está distante anos-luz do que Kant propôs quase 300 anos atrás. Mas também é nossa obrigação olhar para as oportunidades que estão à nossa volta, e não apenas focar nos problemas, como as sacanagens homéricas de autoria dos nossos políticos.

'Passa boi, passa boiada' participou, na última sexta-feira (29), do seminário sobre Comunicação Corporativa promovido pela Universidade Metodista de São Paulo, no campus de São Bernardo do Campo. Um dos convidados foi o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, jornalista Miguel Jorge. Nascido em Ponte Nova, na zona da mata mineira, Jorge teve uma carreira meteórica, não em termos de tempo (apenas), mas em amplitude e importância para o Brasil. Começou em 1963 como repórter da sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo. Três anos mais tarde participou da criação do Jornal da Tarde, ocupando posições como repórter geral até subsecretário de redação. De 1977 a 1987, foi diretor de redação do jornal O Estado de S.Paulo, de onde saiu para integrar a diretoria da então recém-criada Autolatina (joint-venture entre Volkswagen e Ford). Com o fim da empresa, foi para Volkswagen do Brasil, onde assumiu o cargo de vice-presidente de assuntos legais, recursos humanos e assuntos corporativos. Em janeiro de 2001, o grupo Santander Banespa o convidou para assumir a vice-presidência de assuntos corporativos, função à qual se incorporaram as áreas de recursos humanos e assuntos jurídicos. Em março de 2007, após uma ligação do presidente Lula, Jorge aceitou seu convite para assumir o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Sem dúvida, uma trajetória marcada por sucesso e realização, alcançados no mundo corporativo, de forma isenta, e que agora, de acordo com o ideal de Kant (na imagem da pintura acima), se volta para o bem-comum.

Confira, com exclusividade, a entrevista concedida pelo jornalista e ministro Miguel Jorge ao blog 'Passa boi, passa boiada' (PBPB):


Fotos de Jô Rabelo

PBPB: O senhor começou sua carreira como repórter de jornal, participou do processo de criação da Autolatina, foi vice-presidente da Volkswagen e do banco Santander, e hoje está no Governo como Ministro de Estado. Caso semelhante é do Sr. Henrique Meirelles, atual presidente do Banco Central. Eu tive a experiência de trabalhar, indiretamente, na equipe dele no BankBoston no final da década de 90. Ele, então, estava bem colocado, era à época presidente mundial do banco. Pergunto: mesmo com a motivação do servir à Pátria, mesmo com a possibilidade de voltar ao mercado de forma ainda melhor após o período no Governo, como é abrir mão de uma posição de VP de um banco multinacional? O que motiva um profissional com tanta experiência, tanta bagagem, com pista para seguir nesse mundo corporativo, a deixar sua carreira para participar do Governo, levando-se em conta o risco e tudo o que isso pode trazer de bom e de ruim?

Miguel Jorge: Primeiramente, fui jornalista muito tempo. Atuei durante 24 anos como jornalista. Depois fiquei mais 14 anos na Volkswagen e outros seis anos e meio no Santander. Ou seja, durante boa parte da minha vida eu trabalhei com produção. Portanto, eu achava que poderia dar minha contribuição no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Se fosse um outro Ministério, dificilmente eu teria aceitado. Além disso, o fato de eu ter uma relação pessoal com o Presidente Lula me ajudou na decisão, pois também vi que ele poderia me ajudar na minha atuação como ministro. Outra coisa foi o fato de eu conhecer muito a estrutura desse ministério. Durante todos os anos na indústria automobilística, a minha relação mais forte como representante da Volkswagen – e muitas vezes como representante do próprio setor – era com esse Ministério, à época chamado apenas de Ministério da Indústria e Comércio. Depois de um determinado ponto na sua carreira, ou seja, após ter sido VP da Volkswagen, VP do Santander – que é um dos cinco maiores bancos do mundo – restam poucos lugares para ir. Portanto, mesmo que alguns pensem ser babaquice, chega uma hora que você realmente pensa que tem de dar uma contribuição. Tem de ajudar a fazer com que as coisas aconteçam com a melhor das intenções, com muita dedicação.

Da esq. à dir., ministro Miguel Jorge, prof. João Evangelista (Metodista), e Rolf-Dieter Acker, presidente da Basf América do Sul

PBPB: O Sr. se realizou ou está se realizando nisso que o motivou a ir para o Governo?

Miguel Jorge: Com todas as dificuldades que há no Governo, como, por exemplo, levar quatro meses para conseguir vacinas contra a gripe para as pessoas com mais de 60 anos é complicado. Numa empresa privada, você consegue resolver e fazer isso acontecer em 24 horas. No meu ministério, levamos quatro meses para fazer a concorrência, aprovar o plano etc. Só agora, na última terça-feira (26), a vacinação teve início. Eu fui o primeiro lá na fila para tomar a vacina. Mas mesmo com toda essa dificuldade, com toda essa burocracia da estrutura, que é muito pesada, é possível realizar muita coisa. E numa fase como a que nós estamos passando, com essa crise difícil, nós temos trabalhado muito. É claro que o país já tinha fundamentos muito fortes, mas as ações do Governo têm sido rápidas e têm nos ajudado a superar a crise. Além disso, a experiência que você traz da iniciativa privada ajuda muito nesse caso.

Alunos da Metodista durante seminário sobre Comunicação Corporativa

PBPB: Vamos falar agora não do ministro, não do executivo, mas do Miguel, do ser humano que está aí dentro, que deve estar acima de tudo isso. Como o senhor se vê frente às suas escolhas, à sua realização pessoal, profissional, às etapas por que já passou e agora ter chegado aonde está?

Miguel Jorge: É a primeira vez que me perguntam isso, apesar de eu já ter refletido muito sobre essa questão. Eu nunca tinha pensado em conquistar tudo isso. Eu comecei como repórter. Nunca pensei que de repórter eu passaria a subeditor, editor, chefe de reportagem, depois diretor de redação de um jornal como o Estadão. E de repente, num almoço aqui em São Bernardo do Campo, fui convidado pelo Sauer (Wolfgang Sauer, ex-presidente da VW e da Autolatina). Realmente fui surpreendido por isso. Enquanto ele (Sauer) me contava a história do que seria a Autolatina, eu pensava ‘essa vai ser a grande matéria de domingo do Estadão’. Mas não. Quando ele terminou a conversa, me disse: “eu queria que você fizesse parte da equipe de direção dessa empresa”. A mesma coisa aconteceu quando eu fui para o Santander. E também quando recebi uma ligação do presidente Lula: “Miguel, você pode vir aqui a Brasília? Tenho um assunto para tratar com você.” E eu não tinha a menor ideia sobre o que seria a conversa, porque não sabia que meu antecessor estava então de saída. Eu sou neto de libaneses por parte de pai, e os libaneses têm uma expressão chamada ‘maktub’, que quer dizer ‘estava escrito’. Eu sou um pouco fatalista. Eu nunca planejei nada. As coisas aconteceram. E aconteceram de uma maneira muito maior do que eu poderia um dia imaginar na minha vida.