16 de jul de 2009

Sexualmente programados?*


Fotos: Getty Image

* Este artigo, de minha autoria, foi publicado na revista Klasse, na edição de julho de 2003.

O tabu do sexo nos ronda desde os primórdios. Mas será mesmo que esse bicho tem tantas sete cabeças assim?

O sexo é o tema mais consumido na internet. A programação da televisão aberta, em qualquer parte do mundo, é fincada em dois alicerces: sexo e violência.

Freud sintetizou sua teoria no sexo. Alegava que a essência das nossas vicissitudes estava calcada na sexualidade.

Acordamos e a primeira coisa que nos vem à mente é... sim, sexo! Vamos dormir e, se não fazemos sexo momentos antes de cair no sono (momentos longos, de preferência), pensamos em sexo. Nossos travesseiros são os melhores amigos de nossa consciência. Ah, e que delícia de consciência!

Mentes pervertidas? Desvios de caráter? Obsessão? Compulsão? Que nada! Sexo nada mais é, e aqui não pretendo soar simplista, do que a garantia da nossa sobrevivência. Não há o que complicar. A resposta está aí. Basta querermos vê-la.

A raça humana existe até os dias de hoje graças à perpetuação da espécie através do sexo. Está na Bíblia, nas aulas de biologia, em casa, na TV. Está, enfim, em nossas mentes e, sobretudo, está em nossos genes.

Sim, fomos programados geneticamente para reproduzir. Religiosamente, para crescer e multiplicar. E do ponto de vista psicológico, também estamos fadados ao complexo dos coelhos.

Portanto, caros leitores, não nos iludamos. Existem sempre, no mínimo, duas formas de enxergar uma questão. A primeira, a que não recomendo, é focar no problema. A segunda é focar na solução.

Vocês já devem ter ouvido a expressão "Deus está nos detalhes". Ou seja, o segredo da felicidade está no que é simples, no que é bem resolvido, no que é tangível o tempo todo.

Por isso, vamos focar na solução da coisa, ou melhor dizendo, do sexo. Ninguém merece (ah, cedi à tal expressão, já incorporada ao nosso dia-a-dia) passar uma vida inteira focando no problema do sexo. Focar na solução é mais saudável. E é muito mais factível do que possamos imaginar.

Senão, vejamos:

Um homem encontra uma mulher desconhecida no elevador. Na cabeça dele, ela é bela, mas até aí não rolou nenhuma intenção, o que lhe daria a liberdade de puxar uma conversa sem compromisso.

Já na cabeça dela passa aquele velho filminho: "Ah, se eu der trela, dará a entender que quero sair com ele. Mas esse não é meu jeito de ser. Ora bolas, o que ele vai pensar de mim? E depois, como será? Acho melhor não falar nada. Nem mesmo da meteorologia".

No que ele vira e diz: "Esquentou hoje, não?" Ela, então, treme por dentro, como quem quisesse bocejar de boca fechada (aliás, segundo Honoré de Balzac, o cúmulo da elegância é bocejar de boca fechada). Que o digam as balzacquianas.

Calada por um átimo de tempo, ela esboça um arrã. Ele, desconcertado pela resposta lacônica, inicia um assobiar sem ritmo, olha para o teto do elevador, suspira e se encolhe.

Abre-se a porta. Ele olha para o relógio, dando indício de que vai esperá-la sair primeiro. Afinal, ele ainda é um cavalheiro. Ele mal identifica em que posição está o ponteiro dos minutos, e ela já atravessa a rua, eufórica e, ao mesmo tempo, melancólica. Como diz um amigo meu, Roberto Oliveira, uma mulher com segundas intenções é pior que o diabo com todas as intenções juntas.

Ou então pensemos a situação inversa: uma mulher de bem com a vida adentra o elevador, depara-se com um homem. Ele, casmurro e reticente, mal levanta as pálpebras para ver quem chega. Na verdade, ele se lembra da sua chefe, mulher dominadora, que acaba de lhe arrancar o fígado coma as palavras. A doce moça do elevador busca um contato visual. Nenhuma intenção de lascívia. Nenhum subterfúgio para o sexo. Apenas a cordialidade do contato, do trocar de gentilezas, do presentar com boas tardes.

Ele, carregado de preconceito, calcado em seu puritanismo ascendente, ignora a meiga presença e sai como um bufão tão logo a porta do elevador se abre no térreo.

Lá se vão mais duas oportunidades de bom sexo. E aqui não quero dizer sexo por sexo ou algo passageiro, frugal. Vejam bem, não quero dizer "só isso". Sexo pode muito bem ser "só isso", como também pode ser o rito de simbolismo do amor de uma vida inteira. E é exatamente essa dúvida que pairará sobre os quatro personagens deste texto pelo resto de seus dias. Isso se eles se derem ao luxo de pensar no assunto. Afinal, o foco deles foi muito mais no problema do que na solução propriamente dita.

Vejam, a solução não seria irem para a cama. A solução é deixar vida fluir, deixar as coisas acontecerem. Sem necessariamente um desfecho, uma conclusão.

Mais uma vez, o foco deve estar na solução. Sexo para simplesmente perpetuar a espécie cabe aos animais irracionais. A nós cabe tomar as decisões certas, ou seja, aquelas que vão ao encontro dos nossos valores e das nossas aspirações.

Isso vale dizer, então, que tudo é válido, desde que sejamos legítimos com nossos próprios sentimentos e jamais abramos mão do nosso poder de escolha.

Curtir a vida é isso. É estar pronto para se comunicar. Estar pronto para dizer sim. E, acima de tudo, também saber dizer não.

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