10 de jun de 2009

Sobre atraso e avanço, Brasil e Canadá



A revista Economist
divulgou nesta semana o ranking das melhores cidades do mundo para se viver. Vancouver, na costa oeste do Canadá, ficou em primeiro lugar. A nossa querida São Paulo empatou com a linda Rio de Janeiro na 92ª posição.

Sei que parece até injusta, mas
a comparação entre Brasil e Canadá é inevitável. Aliás, mais do que inevitável, ela é necessária.

Morei na cidadezinha de Castlegar, no Canadá, de 1992 a 1993, numa época em que o país detinha o posto de primeiro lugar (hoje é o terceiro, atrás de Noruega, em segundo, e Islândia, em primeiro) em IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.

A região onde fiquei, a Província de Colúmbia Britânica, era considerada pelo governo canadense, na época, a melhor região para se morar no país, levando-se em consideração critérios como educação, saúde e qualidade de vida. Ou seja, no melhor lugar do melhor país do mundo para se viver.

Antes do Canadá, nasci e passei minha infância e adolescência no interior de São Paulo, em São José do Rio Preto. Desde 1994, moro em São Paulo.

“Bem, mas e daí?”, você deve estar se perguntando.

E daí que o choque de culturas pelo que passei marcou minha vida para sempre.

Não, o choque não foi assim tão radical. Diria que foi até sutil. Mas ao olhar do observador mais atento (e sensível), as diferenças podem tornar-se gritantes.

Vamos a elas:

Atravessando a rua
Aprendi lá no Canadá, no início da década de 90, que basta eu sair da guia e pisar na rua para que os carros parem para eu atravessar. Simples assim. O pedestre tem prioridade. Aqui no Brasil, ainda hoje, ou seja, quase 20 anos depois, paro o carro para as pessoas atravessarem a rua e, (salvo exceções) para minha surpresa, alguns pedestres se recusam a atravessar, às vezes até me olham feio, como que se eu fosse sacaneá-los (dando-lhes um susto ou mesmo passando por cima do cidadão). Enfim, a culpa é de todos nós, não apenas do pedestre, nem do motorista, mas da forma como vimos nos tratando nos últimos tempos.

Lixo
A gente aqui ainda engatinha quando se trata de administrar nosso próprio lixo. Não, não estou falando da reciclagem de alumínio (o Brasil é campeão mundial nesse quesito graças ao contingente gigantesco de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza e, a fim de sobreviver, vivem revirando latões, lixões, quase chegam a implorar pela sua latinha de cerveja vazia na praia). Nem tampouco falo da nossa campeã reciclagem de plástico, reflexo idêntico ao caso das latas de alumínio, e por aí vai. Estou falando de produzir lixo com 'consciência', não desperdiçar, pensar (ou seja, usar a razão, presente divino) antes de imprimir, de usar o carro, de fazer compras. Os canadenses que conheci e com quem convivi em 1992 já sabiam e faziam tudo isso. Iam além: separavam em cestinhos apropriados o chamado lixo orgânico: cascas de batata, cenoura, frutas e tudo o que sobra na cozinha e nos pratos. O que faziam com isso? Bem, eles têm um cantinho no quintal, onde armazenam esse material que é utilizado nas suas hortas e jardins. E a gente aqui no Brasil querendo começar a separar em casa o jornal velho, as garrafas de plástico, as latas de alumínio... Pelo menos já é um começo. Tardio, diria, mas um começo!

Consciência ecológica
Você sabe quantas árvores são necessárias para se produzir uma tonelada de papel? Os canadenses sabem disso desde criancinhas. OK, pode parecer exagero, mas a consciência voltada para o meio ambiente no Canadá é um exemplo a ser seguido. É natural que eles também são usuários de grandes quantidades de papel, sobretudo pelo fato de serem uma nação altamente desenvolvida. Mas a conscientização ecológica é algo que já se fundiu à cultura deles. Aqui no Brasil, essa visão já está presente entre as classes A, B e C, mas ainda há muito trabalho a ser feito para se atingir toda a população. (A propósito, são necessárias 17 árvores para a produção de uma tonelada de papel.)

Direitos constitucionais
É lei levada a sério no Canadá (perdão pelo pleonasmo, mas é que no Brasil lei não é dura lex. Tá mais para dura vita) que todo cidadão tenha acesso universal a saúde, moradia e educação. O próprio Michael Moore, documentarista americano, retratou muito bem isso no filme "
Sicko-SOS", em que compara a drástica diferença entre o sistema de saúde pública do Canadá e dos Estados Unidos. Bem, prefiro nem mencionar o nosso aqui no Brasil.

Campanhas voluntárias e ONG's
A onda por aqui agora é responsabilidade social, voluntariado etc. Sim, sei que há muitas pessoas e empresas que já agem há décadas no silêncio promovendo a ajuda ao próximo. Mas é fato, e você há de concordar comigo, que no Brasil a frequência desse tema ganhou amplitude nos últimos dez anos. No Canadá, em 1992, quando lá morei, eles já estavam carecas de saber que esse tipo de ação é não só necessária, mas um dos princípios da solidariedade. Participei de diversas campanhas (até porque eu era patrocinado pelo
Rotary, instituição engajada mundialmente em ajudar o próximo) para arrecadar alimentos, roupas e remédios, além de ações para recolher materiais para reciclagem. Faço, no entanto, um mea culpa aqui: a única vez que doei sangue na minha vida foi lá no Canadá através de uma campanha da Cruz Vermelha daquele país.

Ausência de muros separando as casas e portas destrancadas dos carros
Essa não vou nem comentar.

Patriotismo
Todo canadense sabe de cor o hino nacional do seu país. Tudo bem que a letra do hino tem treze versos, se não me falha a memória, mas até eu aprendi a cantá-lo. Mas o fato que importa não é esse. O que me tocou de verdade foi ver (e ouvir) o hino ser tocado em diversas ocasiões, públicas e privadas, além de a bandeira canadense ser hasteada em comércios, residências, espaços públicos. Aqui no Brasil já vi até gente comentando ser cômico alguém ter a pachorra de saber todos os versos do nosso hino nacional. Sem dizer que muita gente acharia brega hastear uma bandeira do Brasil na frente de suas casas. Verdade ou não é? Ou vai dizer que você nunca pensou nisso?

Papel na lixeira
Nós, latinos, temos o hábito de amassar a folha de papel, fazendo aquela bola, antes de jogá-la no lixo. Uma vez, ao fazer isso, fui orientado por um canadense que amassar a folha de papel antes de dispensá-la é desnecessário, pois ocupa muito mais espaço no lixo. É só tirar a prova
em casa. Faça o teste: amasse várias folhas de papel e jogue no lixo. Contou quantas folhas couberam no cesto? E se apenas jogasse as folhas, acomodando-as no lixo? Caberia muito mais. Sem mais comentários também. ;)

Uso de água
Só vou dar um exemplo aqui: o uso de água para lavar calçadas com a mangueira. Na segunda casa em que morei no Canadá, na família Meyer para ser mais específico (morei em quatro famílias), aprendi uma lição que trago comigo até hoje. Estava eu a ajudar a limpar o carro da família numa tarde de sábado, quando me embrenhei com a mangueira d'água e comecei a lavar a calçada com o forte jato da ferramenta. Fui surpreendido pelo meu 'host father', Mr. Meyer. Ele simplesmente me explicou que é mais fácil, além de muito mais ecologicamente correto, primeiro varrer a calçada, recolher e lixo e só. Ah, quer tirar a poeira do chão? "Um pano molhado basta, Rodrigo!". Foi o que ouvi de volta.

Há mais uma centena de lições que aprendi quando morei e convivi com os canadenses, povo acolhedor, sensível e muito desenvolvido.

Fico só pensando numa coisa: se aprendi essas coisas todas já faz quase 20 anos, em que estágio os caras devem estar hoje?

Estou precisando (ou melhor, desejando -- quem leu "Carta Aberta a Gandhi" sabe o que quero dizer) voltar ao Canadá. Nem que for só a passeio. Afinal, é nossa obrigação cívica, na qualidade de brasileiros, contribuir para um país melhor. Sempre.

P.S.: Não posso deixar de comentar. A Miss Canadá é brasileira. Preciso dizer mais alguma coisa?

4 comentários:

- the smoking rabbit disse...

Uma preocupação para o filme "tarado-SOS" - Michael Moore é conhecido por expor muito do que é visto na superfície ... Ao investigar mais a razão pela qual ele não tem muito .... Ele é superficial para muitos que ainda apoiá-lo ... O filme "tarado-SOS" não irá dizer-vos dos povos que precisam de assistência para manter as suas vidas ... não é raro que os cidadãos canadenses a renunciar em seu sistema público de saúde e elege a doença tem cura nos Estados Unidos ... Exemplo: Canadian pessoa com doença era fatal disse teria de esperar um ano para ver médico ... Pessoa vai para E.U.A. e vê médico imediatamente ... Pessoa é contada necessidades operação dentro de um ano ou a vida vai terminar ... Vai voltar para o Canadá e com o que acontece? Deve esperar três anos para a operação ... Remonta a E.U.A. para obter a operação ... Esta é uma ocorrência comum ... Mas só para aqueles que podem dar ao luxo de pagar o seguro canadense não é transferível para E.U.A. e inverter ... Canadá Governo também está a ser tomadas para os seus próprios tribunais como existem mais de 20.000 mortes por ano que são o resultado de tais incidentes ...

O mesmo ocorre em outros países incidentes com as autoridades nacionais de saúde ... Porque os políticos fazem isso para os seus constituintes? Uma vez que os componentes não são educados para o que estão pedindo - a não medir o custo ... Sim, pode ser benéfico para a rápida rememdies, mas não para aqueles que têm uma necessidade urgente e vida sobreviver ... Que bom é ter a sua prescrição se sua vida não pode ser mantida?

Clarissa Campos disse...

Gostei do seu artigo e tb do seu blog. Parabéns pelo "plantio desta árvore" que gera frutos. Me fez refletir sobre o caminho (a mim desejado) de se tornar um indivíduo melhor a cada dia, mesmo com pequenas ações.

Valter Araujo disse...

Olá Pessoal,

Adorei a materia, porem gostaria de fazer um contraponto otimista. Estive em Vancouver por 30 dias no ano passado, gostaria de compartilhar um pouco minha experiencia.

Tudo que esta escrito no Blog do nosso colega presenciei e fiquei impactado com a diferença bruta entre os paises, foi um choque no primeiro momento, desde não poder tomar mais de 1 banho diario até a falta do nosso feijão, arroz, salada, bife e ovo rs...rs..rs.. (adoro este prato simples).

Crontapondo e sem querer repetir os avanços de Vancouver, senti muita falta da alegria, jogo de cintura, espontaneadade, criatividade do povo brasileiro. As pessoas nos onibus olham para o chão evitando assim qualquer contato com os demais usuarios, não que eu queria que todos conversassem entre si, a minha familia (host family) no Canada onde fiquei hospedado, não tinha nenhum contato com seus vizinhos, acho que nem conheciam eles. As crianças bricavam no porão(só video game) e os parques, que lindos, ficavam vazios, porem eram bem conservados sem dúvidas.

Acho que tudo em excesso é muito ruim, viver uma vida muito regrada torna o ser humano mais solitario e depressivo. Cresci jogando bola na quadra da minha escola, na rua da minha casa, com meus vizinhos e amigos. Fiz muita amizade em metro, onibus, cinema, teatro sendo espontaneo e alegre.

Busquei e busco sempre o melhor para minha familia, espelhar e comparar é saudavel em qualquer situação, porém temos que ter olhos criticos, pois nem sempre o que parece ser o melhor no primeiro momento, realmente é, acarretando penas no futuro.

Amo o Brasil, e sei que nos últimos 10 anos melhorou-se muito e temos infinitas oportunidades de melhoria, o que temos de fazer é cobrar dos nossos filhos, familiares, amigos, etc a busca constante pela melhoria da nossa patria, mesmo que seja comparando com os outros, porém o RESPEITO pela nossa patria tem que ser primordial (não sou militar, rs..rs.rs.).

Amei Vancouver e quero voltar mais vezes, inclusive levar meu filho para que ele tenha a oportunidade de poder ter novas experiencias, visando contribuir para um futuro melhor dele e do nosso pais.

Rodrigo parabens pela materia, e obrigado por promover nosso progresso como nação!

Rodrigo Marques Barbosa disse...

Clarissa e Valter,

Muito obrigado pelos comentários inteligentes.

Realmente, Valter, há diferenças nos 'temperos' entre nós e eles, canadenses. Não senti tanto quanto você, pois morei numa cidade de 12 mil pessoas. Eram mais calorosos.

Mas, como vc mesmo disse, devemos olhar sempre para o que há de belo e também útil e trazer para nosso país.

Forte abraço.

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